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Então vá até o capítulo 1 para acompanhar toda a história de Nathália em Bem Vindo a Refúgio!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Capítulo 13

Sonhei com o Lucas. Estávamos na cachoeira onde beijei o Bernardo pela primeira vez. Não tinha ninguém com a gente. Ele estava se declarando pra mim. Eu não me senti confusa, nem feliz, nem realizada. Eu estava com raiva. Com raiva por ele demorar tanto tempo pra isso? Acho que não. Eu estava com raiva por ele gostar de mim, me amar ou sei lá o que ele pensa que sente por mim. Raiva porque ele é meu amigo, e namorado da minha melhor amiga, então me deu raiva por lembrar da Mariana. Enquanto ele se declarava eu pensava "cala a boca", "que coisa idiota", "serio? não, serio mesmo?" e coisas do tipo, mas não falava nada, ficava só olhando indignada. Ele parou de falar, me olhou com ternura e veio para me beijar. Então acordei. Acordei com raiva do sonho, raiva do Lucas, raiva da Mariana, raiva do Bernardo. Peguei meu diário e comecei a contar do meu sonho e a xingar essas três pessoas que, ultimamente, só me faziam mal quando eu lembrava. Gastei uma página com o sonho e minha revolta pelo Lucas gostar de mim. Meia página reclamando da Mariana e duas páginas e meia xingando o Bernardo, e sabe o que eu percebi? A fase de chorar quando eu lembrava dele havia passado. Agora eu estava "apenas" com raiva. Quebraria outro copo se não fossem quatro horas da manhã. Ou não, era capaz de meus pais me jogarem em um hospício dessa vez.
Faltava meia hora para o despertador tocar. Lembrei que não tinha arrumado minhas coisas pra ficar na casa da Fabí. Eu e a Angelica combinamos de ir direto da aula pra lá, e o Wesley ia encontrar a gente lá às duas horas da tarde.
Mala de viagem, short jeans comportado (já que teria garoto presente), regata vermelha, roupa extra para o caso de as meninas resolvessem sair de noite pra comer alguma coisa, pijama comportado (não sabia ainda se o Wesley ia dormir lá também ou não), uniforme para o outro dia, material para os dois dias, diário, meu notebook, coisas básicas, toalha de banho, blábláblá. Eram 4:30 da manhã. Despertador tocando. Uniforme, trança, café da manhã, Zeus, ônibus.
- Bom dia – Disseram Tio Lourenço e o garoto bonito de olhos azuis acinzentados.
- Bom dia – Respondi.
Sentei no primeiro banco, como nos outros dias.
- Indo viajar? – Puxou conversa Tio Lourenço.
- É, vou passar a noite na casa da minha amiga para fazer trabalho.
- Não vai precisar acordar antes do sol amanhã, sorte sua. – Disse o garoto-bonito-de-olhos-azuis-acinzentados.
- A única desvantagem é não cavalgar de manhã, isso me desestressa para o dia inteiro.
- Não vou mexer com você na volta então. – Disse ele.
- Sábias palavras. – Ri.
- Como se chama seu cavalo? – Perguntou.
- Zeus.
- Ual, ótimo nome. O meu dei o nome quando eu tinha cinco anos. Se chama Pintado. – Rio envergonhado.
- Eu ganhei o Zeus com seis, queria chamar ele de Totó, porque era o nome do meu cachorro que tinha morrido, mas meus pais não deixaram. Quem deu o nome foi um primo da minha mãe.
- Totó? Me sinto melhor agora. – Disse ele, rindo.
Chegamos ao próximo sítio, e como de costume, ele foi para o fundo do ônibus. Segui o exemplo dele de dormir no ônibus e fechei meus olhos, aquela meia hora de sono a menos estava fazendo falta.
- Acorda, chegamos. – Disse Angélica pegando minha mochila para me ajudar. – Você parecia estar dormindo tão bem, não quis te acordar.
- Obrigada, não dormi muito bem de noite.
- Pesadelo? – Perguntou.
- Sim, com o Lucas.  – Respondi, sentindo a raiva voltar.
- Aquele que namora sua amiga?
- Ex-amiga. – Corrigi.
Mudei de assunto e fomos para a sala.

            As primeiras duas aulas eram de biologia com o professor Lucas. Isso mesmo. Lucas. Um professor super divertido, falava palavrão a aula inteira, fazendo todo mundo rir o tempo todo pela informalidade que conduzia suas aulas. A Fabí estava sentando na frente do Wesley agora. Depois tivemos aula de física com o professor Leonardo, não entedia nada do que ele falava, ele sempre parecia estar em outro lugar, vendo coisas que a gente não via. Eram muito interessantes as aulas dele, mas eu teria que me dedicar mais do que o normal pra aprender alguma coisa com ele. No intervalo, infelizmente, não esbarrei em ninguém como ontem, nem vi o aquele garoto novamente. Voltando do intervalo tivemos mais uma aula de física, o professor parecia ter tomado uma garrada de café sozinho no intervalo. Depois, aula de inglês com a professora Regina. Essa aula foi uma tortura pra mim. Eu sou péssima em inglês e super tímida! A aula dela é pura conversação. Agora, imagina: eu tendo que falar em inglês na frente de quarenta e cinco estranhos.  Eu achei que meu rosto ia explodir, de tão quente que ele ficou.
            Sair daquela aula foi como sair de uma cadeira de tortura.
            Fomos, eu e Angélica, para casa da Fabí. A mãe dela tinha deixado almoço pronto, só para esquentarmos. Terminamos e fomos pro computador enquanto o Wesley não chegava para começarmos o trabalho. Eu abri meu msn e elas o facebook. Entendi porque elas nunca estavam online no msn, elas não entravam, simples. Já no facebook, todo mundo estava online. Elas me convenceram e me ajudaram a criar um perfil. Na minha cidade anterior ninguém usava facebook, eu estava começando a me sentir da cidade grande. Que bobeira. Quando terminei, automaticamente apareceram os meus contatos do msn que tinham facebook. Adicionei elas duas, o Guilherme e o Wesley. No perfil do Guilherme estava assim: “Em um relacionamento enrolado com Jaqueline Braga”. Pelo que a Angélica falou, ela era amiga da irmã dela, eu realmente não me importei.
            O Wesley chegou, começamos o trabalho, conversamos mais do que trabalhamos, claro, mas conseguimos terminar antes das oito da noite. A Angélica e a Fabí foram comprar pizza, com a desculpa de que era mais rápido no balcão do que entrega, mas a verdade é que elas queriam que eu e o Wesley ficássemos sozinhos para ver se rolava algo. Não rolou, claro, não tem nada entre a gente. Quando elas voltaram e viram que nada tinha acontecido, começaram a pegar mais pesado.
- Então Fabí, já arranjou um par para a festa da minha irmã? – Perguntou Angélica como quem só estava puxando assunto.
- Ainda não chamei, mas vou chamar meu primo, aquele que você achou bonitinho no facebook, vou falar com ele amanhã, ele vai vir aqui de tarde trazer umas coisas pra minha mãe. – Comentou olhando para mim. Elas provavelmente combinaram a conversa na hora que saíram.
- E você Nathy? – Perguntou Angélica.
- Não, ninguém ainda. – Respondi, imaginando o que vinha a seguir.
- Eu até te chamaria Wesley, mas a festa é da minha irmã, não minha. E você teria que achar alguém, porque só entra em casal. E minha irmã arranjou um amigo dela pra entrar comigo já que eu sou encalhada e não tenho ninguém pra chamar. Palavras dela. – Disse ela conformada. E ensaiada.
- E eu vou com meu primo, ele nunca vai dizer não pra mim. A única que não tem acompanhante ainda é a Nathy. – Disse Fabí.
Todos me olharam esperando o convite que eu estava sendo moralmente obrigada a fazer.
- Ok – sussurrei para mim mesma. – Quer ser meu par Wesley? – Falei corando e querendo pular no pescoço delas.
- Não. Eu não quero que você se sinta moralmente obrigada a me chamar por causa da conversa. – Ele respondeu sorrindo.
- Não estou me sentindo obrigada a nada. - menti – Eu quero que você vá.
Todos ficaram em silêncio, e ele estava com um sorrisinho de quem está se fazendo de difícil e pensando “não me convenceu, continua”.
- Eu já ia te chamar.
- Então eu aceito. – Respondeu ele com ar de convencido, enquanto as meninas trocavam olhares de vitória. Eu estava tão vermelha quanto a regata que estava usando.
- E essa pizza? É só pra perfumar a casa ou vamos comer? – Mudei de assunto.
Enquanto comíamos, colocamos o primeiro filme da saga do Senhor dos Anéis para assistir. O Wesley que levou. Ele tinha todos os filmes originais e todos os livros. Ele era muito viciado. Eu amei, nunca tinha assistido, e a Angélica dormiu no meio do filme. Quando terminou, começamos a assistir Piratas do Caribe, a Fabí não acreditava que eu nunca tinha assistido. Como a Angélica já sabia o filme de cor, foi dormir no quarto da Fabí, onde estavam arrumadas as camas para nós, meninas. O Wesley ia sim dormir lá, como ele mesmo disse “A Fabí me chamou ué”, mas ia dormir na sala. Inclusive estávamos acomodados em sua “cama”. Eu e ele, porque claro, as meninas deitaram uma em cada sofá antes mesmo que pudéssemos olhar pra sala. A Fabí se entregou ao sono antes do filme acabar e foi dormir. Eu estava super empolgada com a história e com o Capitão Jack Sparrow, então convenci o Wesley a assistirmos o segundo filme, porque se ele não quisesse, eu não ia assistir sozinha né, ali era o “quarto” dele.
Quando o filme acabou ficamos conversando por mais quase uma hora. Ele me contou sobre a família dele, a mãe dele é professora na Universidade Federal, e seu pai, além de treinar o time de basquete da escola, da aulas de educação física, lá mesmo no colégio. O irmão dele, além de capitão do time, está no último ano e se preparando para prestar vestibular para fisioterapia, na Federal. O Wesley não sabe ainda o que quer fazer quando terminar o ensino médio, e eu faço menos ideia ainda. Ele está pensando em fazer Cinema e Audiovisual. O que sai totalmente dos planos dos pais dele, e por isso, ele teria que se bancar na faculdade. Enquanto falávamos de faculdade, por algum motivo entramos no assunto música.
Eu nunca tive uma banda favorita, já tive bandas e cantores que eu falava ser um dos meus favoritos, mas sempre quando alguém perguntava qual era minha banda favorita, eu enrolava e falava umas quatro. Mas nunca teve uma que eu falasse “ual, essa é minha banda” ou que alguém ouvisse o nome da banda e logo ligasse a mim. E depois de tanto tempo sem internet, eu só ouvia o que todos ouviam, o que tocava nas rádios, o que passava na TV, perdendo um pouco da minha identidade musical, se é que posso chamar assim.
- Então você não tem nenhuma preferência?
- Não. – Respondi.
- E do que você não gosta?
- Funk. - Respondi instantaneamente, rindo.
- Oh, obrigado. – Desabafou, rindo. - O que tocava nas festas que você ia lá na sua cidade? - Perguntou.
- Sertanejo e pagode basicamente. – Respondi pensativa.
- Por favor. 
- O quê? – Perguntei sem entender.
- Deixa eu te apresentar Musica. – Pegou o celular, me deu os fones e colocou uma musica que eu já tinha ouvido na televisão. Era “Jailhouse Rock” de Élvis Presley.
Eu amei aquilo como não tinha amado outra musica ainda. Estava encontrando minha identidade musical. Ele me passou algumas músicas de Élvis e dos Beatles e eu fui dormir ouvindo nada menos que clássicos.

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