Caixas na
sala de visitas, caixas na sala de estar, caixas na sala de jantar, caixas
escrito "cuidado frágil" na cozinha, caixas nos quartos, caixas nos
corredores, móveis desmontados... e espaço. Espaço no lugar do sofá, espaço no
lugar da televisão, espaço no lugar da geladeira, espaço no lugar das camas,
metade dos móveis já estavam no caminhão.
A anos meus pais queriam mudar daquele sítio para um que fosse mais perto da capital, ou pelo menos perto de uma cidade grande da região, mas eu sempre os convencia a não fazer isso. Queria estar no meu cantinho de sempre. Na casa onde eu cresci. Onde os rabiscos de criança se escondem em baixo de camadas de tinta nas paredes. Onde uma casinha de boneca lilás com portinhas brancas descansa no quintal. Onde aprendi a andar, cavalgar, falar, nadar... Onde aprendi a ser eu. Sempre quando pensava na possibilidade de ir embora dali, meus olhos enchiam de lágrimas e meu coração apertava, mas, não agora. Sim, eu sentiria saudades. Saudades de quando nada doía ao olhar a janela da sala. Saudades de quando eu e Mariana éramos melhores amigas, e eu confiava nela, e nada podia nos separar. Saudades de um tempo onde não existia Bernardo, onde Lucas não era apaixonado por mim, onde garotos não eram um problema para mim. Talvez quando me refiro á Lucas, não esteja me expressando bem. Não acho ruim ele gostar de mim, e realmente, ele foi muito fofo comigo, mas... ele é meu melhor amigo de infância, não que isso seja um problema, mas, desde que o conheço o vejo como "da Mari". É estranho pensar em algo que envolva ele e eu. Talvez se ele tivesse contado antes. Eu não estava em um bom momento para uma declaração. Agora era tarde, além de tudo, ele estava namorando a minha ex melhor amiga, e eu estava indo embora.
Eu estava indo embora! Isso não é bom? Não ter que me preocupar mais com isso! Alívio!
Quando quase tudo já estava no caminhão, um carro se aproximou da nossa casa.
- Outro caso de vida ou morte? - Perguntei a Lucas quando este veio até mim.
- Vo.. você não pode ir embora! - Ele estava com lágrimas presas nos olhos. Falava baixo, como se não quisesse que alguém ouvisse.
- Oi...- Disse Mariana chegando perto de nós e segurando a mão do Lucas.
- Com licença, tenho que ajudar a arrumar o resto das coisas. - Respondi me virando.
- Espera! Eu sei que você nunca vai me perdoar mas, por favor, me dá pelo menos um abraço de tchau. Em nome desses nove anos de amizade. - Implorou Mariana dando um passo à frente de Lucas.
Olhei para longe, olhei para Lucas que me olhava ainda com lágrimas nos olhos, olhei para meus pés. Dei um passo à frente e abracei-a sem vontade.
- Tchau. - Disse a ela.
Ela me abraçou forte e começou a chorar.
- Por favor Nathy. Eu não quis dizer aquelas coisas, foi idiotice minha. Eu devia ter deixado você escolher a hora e a pessoa certa. Ele me disse que tinha terminado com a Alice. Me perdoa por favor!!
Eu fechei os olhos e uma lágrima escorreu. Eu não queria lembrar dele. Não mesmo.
- Para de chorar tá? Está tudo bem. Eu vou embora e não vou mais precisar lembrar disso. - Disse desprendendo-me de seu abraço, sem olhá-la nos olhos. Eu não estava preparada para dizer que lhe perdoava. Seria mentira. Não estava pronta para perdoa-la. Anda não tinha parado de doer.
- Você não me perdoou. Você não vai me perdoar nunca! Eu sou uma imbecil! O que foi que passou pela minha cabeça em?! - Disse Mariana e saiu correndo para o carro esperando que Lucas a seguisse.
- Eu admiro sua força, eu não teria conseguido abraçá-la. - Disse ele olhando para o chão e rindo um pouco para não parecer rude.
Eu não sabia o que falar.
- Em nome de nove anos de amizade. - Eu também estava olhando para o chão.
- Sobre ontem, me desculpe, eu não devia ter dito aquelas coisas e...
- Não peça desculpas, não tem problema nisso, eu... eu... - Interrompi.
- Você? - Ele pediu uma continuação.
- Eu gostei de saber... não era um bom dia sabe? Eu estava muito abalada. Ainda estou, aliás. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Estava sem reação.
- Eu entendo. Você ia embora sem se despedir mesmo?
- Desculpe. Como... vocês souberam? - Olhei-o.
- Seus pais não sabiam que você havia brigado com a Mariana também, eles ligaram. O Bernardo queria vir junto, mas eu não deixei. - Olhou dentro dos meus olhos.
- Obrigada. Mesmo. - Meus olhos encheram e eu os desviei do olhar do Lucas.
- Eu não quero que você vá. - Disse Lucas chorando. Olhei-o assustada. - Fica aqui comigo. Por favor. - Ele pedia com ar de quem sabia que era impossível isso acontecer.
- Lucas, eu não.., - Respondi chorando, ele me interrompeu.
- Esquece. Estou pedindo de mais de você, eu vou embora. - Ele disse dando alguns passos para trás.
- Não vai. - Sussurrei em meio ás lágrimas que saiam sem permissão dos meus olhos. Ele já havia virado de costas para mim.
Lucas parou, virou-se novamente para mim colocou a mão em punho fechado em frente a boca, segurando o choro. Olhou para o céu antes de olhar pra mim, que chorava sem rumores, mas sem parar. Assim que me olhou, correu até mim e me abraçou. Aquele abraço forte onde eu me sentia protegida. Com a cabeça em seu ombro chorei, como no dia anterior em cima do monte de feno.
- Eu te amo tanto Nathalia. - Sussurrou - Espera aqui que eu vou buscar uma coisa que eu tenho no porta-malas pra você.
A anos meus pais queriam mudar daquele sítio para um que fosse mais perto da capital, ou pelo menos perto de uma cidade grande da região, mas eu sempre os convencia a não fazer isso. Queria estar no meu cantinho de sempre. Na casa onde eu cresci. Onde os rabiscos de criança se escondem em baixo de camadas de tinta nas paredes. Onde uma casinha de boneca lilás com portinhas brancas descansa no quintal. Onde aprendi a andar, cavalgar, falar, nadar... Onde aprendi a ser eu. Sempre quando pensava na possibilidade de ir embora dali, meus olhos enchiam de lágrimas e meu coração apertava, mas, não agora. Sim, eu sentiria saudades. Saudades de quando nada doía ao olhar a janela da sala. Saudades de quando eu e Mariana éramos melhores amigas, e eu confiava nela, e nada podia nos separar. Saudades de um tempo onde não existia Bernardo, onde Lucas não era apaixonado por mim, onde garotos não eram um problema para mim. Talvez quando me refiro á Lucas, não esteja me expressando bem. Não acho ruim ele gostar de mim, e realmente, ele foi muito fofo comigo, mas... ele é meu melhor amigo de infância, não que isso seja um problema, mas, desde que o conheço o vejo como "da Mari". É estranho pensar em algo que envolva ele e eu. Talvez se ele tivesse contado antes. Eu não estava em um bom momento para uma declaração. Agora era tarde, além de tudo, ele estava namorando a minha ex melhor amiga, e eu estava indo embora.
Eu estava indo embora! Isso não é bom? Não ter que me preocupar mais com isso! Alívio!
Quando quase tudo já estava no caminhão, um carro se aproximou da nossa casa.
- Outro caso de vida ou morte? - Perguntei a Lucas quando este veio até mim.
- Vo.. você não pode ir embora! - Ele estava com lágrimas presas nos olhos. Falava baixo, como se não quisesse que alguém ouvisse.
- Oi...- Disse Mariana chegando perto de nós e segurando a mão do Lucas.
- Com licença, tenho que ajudar a arrumar o resto das coisas. - Respondi me virando.
- Espera! Eu sei que você nunca vai me perdoar mas, por favor, me dá pelo menos um abraço de tchau. Em nome desses nove anos de amizade. - Implorou Mariana dando um passo à frente de Lucas.
Olhei para longe, olhei para Lucas que me olhava ainda com lágrimas nos olhos, olhei para meus pés. Dei um passo à frente e abracei-a sem vontade.
- Tchau. - Disse a ela.
Ela me abraçou forte e começou a chorar.
- Por favor Nathy. Eu não quis dizer aquelas coisas, foi idiotice minha. Eu devia ter deixado você escolher a hora e a pessoa certa. Ele me disse que tinha terminado com a Alice. Me perdoa por favor!!
Eu fechei os olhos e uma lágrima escorreu. Eu não queria lembrar dele. Não mesmo.
- Para de chorar tá? Está tudo bem. Eu vou embora e não vou mais precisar lembrar disso. - Disse desprendendo-me de seu abraço, sem olhá-la nos olhos. Eu não estava preparada para dizer que lhe perdoava. Seria mentira. Não estava pronta para perdoa-la. Anda não tinha parado de doer.
- Você não me perdoou. Você não vai me perdoar nunca! Eu sou uma imbecil! O que foi que passou pela minha cabeça em?! - Disse Mariana e saiu correndo para o carro esperando que Lucas a seguisse.
- Eu admiro sua força, eu não teria conseguido abraçá-la. - Disse ele olhando para o chão e rindo um pouco para não parecer rude.
Eu não sabia o que falar.
- Em nome de nove anos de amizade. - Eu também estava olhando para o chão.
- Sobre ontem, me desculpe, eu não devia ter dito aquelas coisas e...
- Não peça desculpas, não tem problema nisso, eu... eu... - Interrompi.
- Você? - Ele pediu uma continuação.
- Eu gostei de saber... não era um bom dia sabe? Eu estava muito abalada. Ainda estou, aliás. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Estava sem reação.
- Eu entendo. Você ia embora sem se despedir mesmo?
- Desculpe. Como... vocês souberam? - Olhei-o.
- Seus pais não sabiam que você havia brigado com a Mariana também, eles ligaram. O Bernardo queria vir junto, mas eu não deixei. - Olhou dentro dos meus olhos.
- Obrigada. Mesmo. - Meus olhos encheram e eu os desviei do olhar do Lucas.
- Eu não quero que você vá. - Disse Lucas chorando. Olhei-o assustada. - Fica aqui comigo. Por favor. - Ele pedia com ar de quem sabia que era impossível isso acontecer.
- Lucas, eu não.., - Respondi chorando, ele me interrompeu.
- Esquece. Estou pedindo de mais de você, eu vou embora. - Ele disse dando alguns passos para trás.
- Não vai. - Sussurrei em meio ás lágrimas que saiam sem permissão dos meus olhos. Ele já havia virado de costas para mim.
Lucas parou, virou-se novamente para mim colocou a mão em punho fechado em frente a boca, segurando o choro. Olhou para o céu antes de olhar pra mim, que chorava sem rumores, mas sem parar. Assim que me olhou, correu até mim e me abraçou. Aquele abraço forte onde eu me sentia protegida. Com a cabeça em seu ombro chorei, como no dia anterior em cima do monte de feno.
- Eu te amo tanto Nathalia. - Sussurrou - Espera aqui que eu vou buscar uma coisa que eu tenho no porta-malas pra você.
- O que
está acontecendo aqui? - Ouvi Mariana dizer enquanto ele pegava a chave do
carro para abrir o porta-malas.
Ele me entregou uma sacola bem
amarrada que não dava pra ver o que tinha dentro.
- Quando você chegar na sua casa nova você olha tá? - Ele disse.
- Ok. - Respondi. Não estava em condições de perguntá-lo por que não podia ver agora.
- Eu vou embora. Deixar você seguir sua vida. Se cuida. Manda noticias tá? E... não some, vem me visitar quando você quiser. Eu te amo! - Nessa hora ele me abraçou mais forte. - E sempre vou te amar! Tchau. - Me deu um beijo na testa e saiu, sem esperar resposta.
Mariana estava no carro chorando e olhando-o sem acreditar. Eu fiquei parada olhando-o ir embora. Olhei-o até o carro desaparecer no caminho que levava à estrada. Adeus Lucas. Foi um prazer te conhecer. Obrigada por me amar.
Quatro horas de viagem. Quatro horas ouvindo meu pai falando como o novo sítio era incrível. Ele disse que o sítio tinha o mesmo nome e placa de quando era uma chácara. Chácara Refúgio. Amei o nome do local. Ele disse que a casa era maior que a nossa. Disse que era lilás e branca, como minha casa de bonecas. Ele contou que a casa tem dois andares, e a escada de dentro é em espiral, como eu sempre quis. Do lado direito da casa, pelo lado de fora, tinha uma escada que levava até a varanda que servia de fachada para a casa e que também estendia-se pelo lado direito, onde ficava a escada. Tinha uma imensa porta de vidro nessa varanda que levava á uma linda sala de estar, onde ficaria nosso jogo de sofá vermelho. As paredes dessa sala eram brancas, e o chão era de madeira bem vermelha, que brilhava. O meu quarto ficava do lado oposto ás escadas, pois meu pai sabia que eu amava sacadas. Eu estava ficando encantada com a casa só de o meu pai dizer.
Passamos pela cidade, a Capital, onde eu iria estudar. Passamos em frente ao meu futuro colégio. Era enorme! Ocupava uma quadra inteirinha.
- As aulas aqui começaram segunda-feira, então amanhã você começa. - Disse minha mãe.
Ótimo. Entrar em um colégio novo, onde não conheço ninguém, em uma cidade milhares de vezes maior que a minha antiga cidadezinha, três dias depois de começarem as aulas, no segundo ano, onde todas os grupinhos já estão formados. Ótimo, acho que vou me enturmar rapidinho.
- Chegamos! - Disse meu pai.
Passamos por um portão bem na beirada da rodovia, escrito "Chácara Refúgio". Vi a casa de longe. Era linda. Mas o que me chamou mais a atenção quando chegamos foi uma placa simples de madeira, escrito em letras vermelhas “Bem Vindo a Refúgio!”. Eu realmente estava em casa. Uma nova casa, um novo refúgio. Um novo Refúgio.
Enquanto colocavam os móveis e as caixas na casa, eu fui conhecer meu quarto. Era lindo. Enorme. Tinha um closet enorme também. Tinha um banheiro só pra mim, com um espelho enorme. Era super claro, com aquela imensa porta de vidro que ia pra sacada. Da sacada eu via um descampado, muito longe, muito longe mesmo. Meu novo refúgio. Pra chegar até lá teríamos que passar por um rio. Se eu fosse a pé eu iria demorar uma hora mais ou menos, mas com o Zeus, isso não seria problema.
Sentei no chão da minha sacado e comecei a olhar o que tinha dentro da sacola que Lucas me deu.
Tinha um copo descartável que segundo a etiqueta colada nele, eu havia usado na festinha de doze anos do Lucas. Um colar escrito Nathália que ele me convenceu a dar pra ele, dizendo que ia embora e queria ter uma lembrança minha, eu tinha doze anos e ele tinha quatorze. Tinha um caderninho cheio de poemas que ele fez para mim aos seus quinze anos, quando estava no ápice do desespero por mim, mas não tinha coragem de me contar seus sentimentos. O poema que mais me chamou atenção foi um chamado “Me desculpe Rainha”. Era assim:
“Eu lhe ofereci o mundo. Disse que quando ele fosse teu, você seria a Rainha e eu o Rei. Te ofereci os céus, te ofereci as nuvens, te ofereci as estrelas. Mas para que você iria querer essas coisas? O mundo, bom, você ainda não o tinha, mas já era dona do meu mundo. Os céus? As nuvens? Você só precisa pedir que eu te levo. As estrelas? Para que? Se seu brilho ofuscaria todas elas?
Minha Rainha, nunca serei digno de seu amor, nem ao menos de sua amizade. Fiz coisas terríveis. Jurei minha fidelidade eterna, e beijei sua melhor amiga. Me perdoe minha Rainha, por tão estúpida ação.
Sei que não pensas em mim como penso em ti, sei que não dorme ouvindo o som de minha voz em sua cabeça. Sei que não treme ao me ver. Sei que não acontecem essas coisas que acontecem em mim, em você. Mas sei que eu posso te fazer feliz, se você quiser. E juro nunca mais beijar nenhuma outra garota, se deixar-me ser seu Rei. Depois do que fiz acho que não terei seu perdão. Mas continuarei te amando, até que os céus sumam, as nuvens se desfaçam, as estrelas se apaguem e o mundo deixe de existir. E quando esse dia chegar, eu ainda te amarei. Me desculpe Rainha, por não ser seu amado príncipe em cima de um cavalo branco. Sou apenas um plebeu que vive consumido por este amor platônico e moveria céus e mares se fosse necessário para ver seus olhos mais uma vez.”
- Quando você chegar na sua casa nova você olha tá? - Ele disse.
- Ok. - Respondi. Não estava em condições de perguntá-lo por que não podia ver agora.
- Eu vou embora. Deixar você seguir sua vida. Se cuida. Manda noticias tá? E... não some, vem me visitar quando você quiser. Eu te amo! - Nessa hora ele me abraçou mais forte. - E sempre vou te amar! Tchau. - Me deu um beijo na testa e saiu, sem esperar resposta.
Mariana estava no carro chorando e olhando-o sem acreditar. Eu fiquei parada olhando-o ir embora. Olhei-o até o carro desaparecer no caminho que levava à estrada. Adeus Lucas. Foi um prazer te conhecer. Obrigada por me amar.
Quatro horas de viagem. Quatro horas ouvindo meu pai falando como o novo sítio era incrível. Ele disse que o sítio tinha o mesmo nome e placa de quando era uma chácara. Chácara Refúgio. Amei o nome do local. Ele disse que a casa era maior que a nossa. Disse que era lilás e branca, como minha casa de bonecas. Ele contou que a casa tem dois andares, e a escada de dentro é em espiral, como eu sempre quis. Do lado direito da casa, pelo lado de fora, tinha uma escada que levava até a varanda que servia de fachada para a casa e que também estendia-se pelo lado direito, onde ficava a escada. Tinha uma imensa porta de vidro nessa varanda que levava á uma linda sala de estar, onde ficaria nosso jogo de sofá vermelho. As paredes dessa sala eram brancas, e o chão era de madeira bem vermelha, que brilhava. O meu quarto ficava do lado oposto ás escadas, pois meu pai sabia que eu amava sacadas. Eu estava ficando encantada com a casa só de o meu pai dizer.
Passamos pela cidade, a Capital, onde eu iria estudar. Passamos em frente ao meu futuro colégio. Era enorme! Ocupava uma quadra inteirinha.
- As aulas aqui começaram segunda-feira, então amanhã você começa. - Disse minha mãe.
Ótimo. Entrar em um colégio novo, onde não conheço ninguém, em uma cidade milhares de vezes maior que a minha antiga cidadezinha, três dias depois de começarem as aulas, no segundo ano, onde todas os grupinhos já estão formados. Ótimo, acho que vou me enturmar rapidinho.
- Chegamos! - Disse meu pai.
Passamos por um portão bem na beirada da rodovia, escrito "Chácara Refúgio". Vi a casa de longe. Era linda. Mas o que me chamou mais a atenção quando chegamos foi uma placa simples de madeira, escrito em letras vermelhas “Bem Vindo a Refúgio!”. Eu realmente estava em casa. Uma nova casa, um novo refúgio. Um novo Refúgio.
Enquanto colocavam os móveis e as caixas na casa, eu fui conhecer meu quarto. Era lindo. Enorme. Tinha um closet enorme também. Tinha um banheiro só pra mim, com um espelho enorme. Era super claro, com aquela imensa porta de vidro que ia pra sacada. Da sacada eu via um descampado, muito longe, muito longe mesmo. Meu novo refúgio. Pra chegar até lá teríamos que passar por um rio. Se eu fosse a pé eu iria demorar uma hora mais ou menos, mas com o Zeus, isso não seria problema.
Sentei no chão da minha sacado e comecei a olhar o que tinha dentro da sacola que Lucas me deu.
Tinha um copo descartável que segundo a etiqueta colada nele, eu havia usado na festinha de doze anos do Lucas. Um colar escrito Nathália que ele me convenceu a dar pra ele, dizendo que ia embora e queria ter uma lembrança minha, eu tinha doze anos e ele tinha quatorze. Tinha um caderninho cheio de poemas que ele fez para mim aos seus quinze anos, quando estava no ápice do desespero por mim, mas não tinha coragem de me contar seus sentimentos. O poema que mais me chamou atenção foi um chamado “Me desculpe Rainha”. Era assim:
“Eu lhe ofereci o mundo. Disse que quando ele fosse teu, você seria a Rainha e eu o Rei. Te ofereci os céus, te ofereci as nuvens, te ofereci as estrelas. Mas para que você iria querer essas coisas? O mundo, bom, você ainda não o tinha, mas já era dona do meu mundo. Os céus? As nuvens? Você só precisa pedir que eu te levo. As estrelas? Para que? Se seu brilho ofuscaria todas elas?
Minha Rainha, nunca serei digno de seu amor, nem ao menos de sua amizade. Fiz coisas terríveis. Jurei minha fidelidade eterna, e beijei sua melhor amiga. Me perdoe minha Rainha, por tão estúpida ação.
Sei que não pensas em mim como penso em ti, sei que não dorme ouvindo o som de minha voz em sua cabeça. Sei que não treme ao me ver. Sei que não acontecem essas coisas que acontecem em mim, em você. Mas sei que eu posso te fazer feliz, se você quiser. E juro nunca mais beijar nenhuma outra garota, se deixar-me ser seu Rei. Depois do que fiz acho que não terei seu perdão. Mas continuarei te amando, até que os céus sumam, as nuvens se desfaçam, as estrelas se apaguem e o mundo deixe de existir. E quando esse dia chegar, eu ainda te amarei. Me desculpe Rainha, por não ser seu amado príncipe em cima de um cavalo branco. Sou apenas um plebeu que vive consumido por este amor platônico e moveria céus e mares se fosse necessário para ver seus olhos mais uma vez.”
Tinha uma carta que dizia:
“Nathália, passei a noite pensando no que eu disse. Me perdoe por não
ter tido coragem de dizer isso antes, e me perdoe por ter desistido de você
quando Bernardo apareceu, mas pensei não estar a altura dele. Um garoto que
chama a atenção das garotas, rico, educado, da cidade grande. Eu o que sou?
Apenas um caipira, sem terras, sem cultura, sem dinheiro. Hoje percebi que
deveria ter insistido um pouco mais com meu coração, se eu tivesse te contado
antes, talvez ele não tivesse ido atrás de você, eu podia te fazer feliz, eu
sei que podia, e ainda posso se você quiser. Eu não te esqueci, e nunca vou
esquecer, você foi o que aconteceu de mais especial na minha vida. Devo a maior
parte dos meus sorrisos à você. Espero que não esteja chorando. Junto com esta
carta devolvo-te o que sempre foi seu, e mando algo que espero que guardes,
para lembrar-se de mim. Eu guardava dentro do travesseiro até meus quinze anos,
quando minha mãe encontrou e ficou tirando sarro de mim. Háháhá. Bom, acho que
já falei o que precisava. Espero que não se importe por eu ter feito uma cópia
da foto e do caderno de poemas para guardar comigo. Se cuida, minha Rainha.
Beijos. Eu te amo, desde sempre e para sempre."
E encontrei a foto que ele havia me contado. Eu e ele na minha formatura de quarta série. Faltava um pedaço da foto. Faltava Mariana alí. Enquanto observava o braço de Mariana no meu ombro, a única parte dela que restou, eu ria com o corte tremulo na foto. Então meu riso se virou em um tímido sorriso, e as lembranças tomaram conta dos meus pensamentos. O garotinho que me carregou no colo quando eu caí da árvore, que não me deixou cair do cavalo, e que se desesperou quando não conseguiu impedir que eu caísse. O meu melhor amigo desde meus seis anos. Passei o dedo por cima dele na foto enquanto sorria com saudade. Talvez eu o amasse desde sempre também e não soubesse. Ou eu sabia mas não admitia porque Mariana o amava. Talvez aquilo que aconteceu hoje não tenho sido um adeus. É, eu sabia.
E encontrei a foto que ele havia me contado. Eu e ele na minha formatura de quarta série. Faltava um pedaço da foto. Faltava Mariana alí. Enquanto observava o braço de Mariana no meu ombro, a única parte dela que restou, eu ria com o corte tremulo na foto. Então meu riso se virou em um tímido sorriso, e as lembranças tomaram conta dos meus pensamentos. O garotinho que me carregou no colo quando eu caí da árvore, que não me deixou cair do cavalo, e que se desesperou quando não conseguiu impedir que eu caísse. O meu melhor amigo desde meus seis anos. Passei o dedo por cima dele na foto enquanto sorria com saudade. Talvez eu o amasse desde sempre também e não soubesse. Ou eu sabia mas não admitia porque Mariana o amava. Talvez aquilo que aconteceu hoje não tenho sido um adeus. É, eu sabia.