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Então vá até o capítulo 1 para acompanhar toda a história de Nathália em Bem Vindo a Refúgio!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Capítulo 11


D
epois de uma semana tão movimentada, sábado chegou terrivelmente entediante. Acordei às onze horas da manhã com o corpo doendo de tanto dormir. Peguei meu computador e fui pra sacada. Só tinha a Mariana conectada. Grande msn! Antes que eu desligasse o computador e me deitasse pra assistir televisão, minha mãe bateu na porta me chamando para o almoço. Depois do almoço, eu deixei o computador ligado com o msn aberto no criado-mudo e deitei pra assistir televisão. Quando pensei em ir para o descampado fugir do tédio adivinha? Não, o Lucas não entrou no msn. Chuva. Sim, começou a chover. Agora meu tédio seria supremo. Já passava das quatro horas da tarde, então, meu celular tocou. Numero desconhecido.
- Alô. - Disse.
“É a Nathalia?” - Disse uma voz feminina não identificada.
- Sim, quem está falando? - Perguntei. O fato de ser uma garota falando comigo era quase totalmente tranquilizador.
“É a Angélica. Tudo bem amiga?” - Respondeu.
- Tudo sim, como conseguiu meu número? - Perguntei.
“Liguei pro Tio Lourenço, o motorista do ônibus, disse que era por causa de um trabalho do colégio.” - Disse sapeca.
- Ah, sim. Mas diga, a que devo a honra da sua ligação? - Rimos.
“Você não pode vir dormir aqui em casa hoje? Sei que a gente se conheceu ontem mas, eu queria que você e a Fabí viessem pra gente se conhecer melhor.”
- Acho que posso sim.
“Ótimo! Vou ligar pra Fabí, você me liga confirmando dai?”
- Claro.
“Ok, quer que a gente te busque?”
- Não precisa não, minha mãe vai querer me levar. Daí, se ela deixar eu ir, eu pego o endereço na hora que te ligar.
“Tudo bem. Até mais então.”
- Até.
            Sim, minha mãe deixou. Fui pro quarto, liguei pra Angélica, ela ficou super empolgada de eu poder ir, a Fabí também ia, mas só ia poder chegar depois das sete, porque tinha ido almoçar na casa de uma tia com a mãe e iam demorar pra ir pra casa.          Arrumar as malas. Que exagero. Peguei minha mochila de viagem, coloquei um pijama, um shorts jeans curto o suficiente pra só usar em casa, e uma regata amarela pro outro dia. A gente não ia sair, ia? Toalha limpa, roupa de baixo e o meu diário, claro. Eu não ia deixar em casa, era perigoso de mais. Troquei de roupa, coloquei um shorts branco, uma batinha roxa e uma rasteirinha, a qual eu ia usar no outro dia. Fiz uma trança no cabelo, como de costume, e estava pronta.
            Angélica morava em um prédio de cinco andares, em um condomínio. Não era nada luxuoso, um condomínio simples, mas bem aconchegante, e que tinha quatro prédios iguais ao que ela morava. Seu apartamento era no terceiro andar. Não tinha elevador, ainda bem que levei só uma mochila.
            Assim que cheguei, liguei pra ela. Ela foi me encontrar no portão. Minha mãe não fez questão de ir até o apartamento. A Angélica pediu pra eu ir embora só de noite, igual a Fabí, e minha mãe deixou.
            Uma coisa que me intrigou bastante foi que todos da família da Angélica são loiros de olhos azuis, e ela, apesar da pele ser bem clara, tem cabelos pretos e olhos castanhos.
            Assim que chegamos no apartamento, ela me apresentou pra mãe dela e fomos para o quarto. Eram quase seis horas da tarde.
- Então, por que você não voltou de ônibus ontem? - Perguntou Angélica curiosa.
- Bom, fui almoçar com minha mãe e depois tive que ir à psicóloga. Que saco né? - Disse.
- Ah, sei lá, nunca fui. - Rimos. - Mas acho que seria bom pra mim. - Ela disse triste. - Mas então, porque seus pais resolveram que você deveria ir lá?
- Como disse minha mãe, “eles cansaram de me ver chorando por causa do Bernardo” e acham que eu preciso de ajuda com minha autoestima. - Disse arrogante.
- Quem é Bernardo? - Disse Angélica com medo de perguntar.
            Contei toda a história pra ela sem chorar nenhuma vez. Claro, toda vez que eu estava prestes a desabar ela fazia uma piadinha e nós caímos na gargalhada.
- Caraca que raiva desse garoto. É um mané! - Rimos. - Tipo um garoto aqui do condomínio. A gente começou a ficar e duas semanas depois ele me pediu em namoro. Eu contei pra toda minha família e ficaram super felizes. Três dias depois que começamos a namorar ele tentou me levar pra cama, e como eu não quis, ele terminou comigo. - Disse ela pra baixo. - Meu primeiro beijo foi com ele. Meu primeiro namorado, primeiro amor, e ele estragou tudo. Por quê? Porque é um mané! Igual o Bernardo! - Rimos de novo.
            Eram sete horas quando ela me chamou pra ir ao campo de futebol que tinha atrás do estacionamento.
            Todo sábado, os jovens do condomínio se encontravam lá pra conversar, namorar, paquerar e fazer musica. Dois garotos levavam violão, um levava um bongô, outro pandeiro entre outros instrumentos. A Angélica ia sempre, mas ficava só na roda dos músicos. Nunca teve amizades com garotas ali no condomínio, e as que tinha, só iam lá por causa dos garotos. Os cinco músicos mais importantes, aqueles que não perdiam um encontro, que eram super amigos e os mais bonitos eram o Marcos, que tocava violão, dezesseis anos, com namorada e estudava em um colégio estadual ali perto. Ele estava no segundo ano como nós. Jorge, outro violão, cantava, era solteiro, um e setenta de altura, moreno de olho verde, lindo, dezoito anos, faz cursinho pré-vestibular no período da noite onde nós estudamos. Angélica tinha uma quedinha por ele. Tinha o Guilherme, no bongô. Ele tem dezessete, aquela idade que me assusta. Ele esta no último ano do ensino médio no mesmo colégio que a gente. Cabelo comprido, castanho bem claro, olhos castanhos mel. Solteiro. Com aquele sorriso retinho e branco que encantava e convidada. Sorriso contagiante.
            Já eram nove horas da noite quando a Fabí chegou. Ela ligou no celular da Angélica e fomos encontrar ela no portão. Eu não queria deixar o campo.
- O Guilherme te olhou o tempo todo. - Disse Angélica quando estávamos levando a Fabí para o campo.
- Sei. Quem me dera. - Rimos.
- Vocês vão me mostrar quem é né? - Disse Fabí.
- Claro! Ele é lindo! - Disse Angélica entusiasmada.
            Quando chegamos ao campo, a “banda” não estava mais formada. Marcos estava se agarrando com a namorada no canto do campo, Jorge conversando com uma garota loira do gol, e os outros jogando vôlei do outro lado do campo com o resto das pessoas. E Guilherme? No mesmo lugar de antes, com um violão, sozinho, cantando baixo.
- Aquele sozinho é o Guilherme. - Disse Angélica pra Fabí.
- Ele é lindo mesmo. Nathy sortuda! - Rimos, e eu corei.
- Ai gostei, vou te chamar só de Nathy agora. Pode? - Pediu Angélica.
- Claro! Sempre me chamaram assim.
- Eu também vou.
            O campo era cercado por redes para não ter perigo de uma bola acertar um dos carros. Estávamos na entrada do campo. Eu não conseguia parar de olhar pra ele. Até a hora que ele olhou e seus olhos cor de mel encontraram os meus. Parei de respirar, mas não consegui desviar o olhar. Ele abriu aquele enorme e lindo sorriso e fez sinal pra que nós fossemos lá.
- O Guilherme tá chamado a gente pra ir lá. - Falei voltando a respirar.
            Elas olharam e ele deu tchauzinho e chamou de novo.
- Vamos. - Disse Angélica decidida e começou a andar. Fabí a seguiu mas eu fiquei estática por alguns milésimos, até que elas perceberam e me puxaram.
- Te abandonaram então? - Disse Angélica toda simpática.
- É, chega uma certa hora eu fico sozinho com um violão que não presta pra nada nas minhas mãos que não sabem tocar. - Disse ele sorrindo.
            Ela e Fabí sentaram. Uma de cada lado meu. Quando percebi que só eu estava de pé, sentei imediatamente, bem de frente pra ele.
- Posso? - Perguntou Angélica apontando para o violão.
- Claro! - Respondeu Guilherme. - Não sabia que você tocava Angélica.
            Ela o olhou assustada.
- E eu não sabia que você sabia meu nome. - Disse sorrindo.
- Você mora aqui a quinze anos e estuda no mesmo colégio que eu, como não saberia? Eu não sei o nome de suas amigas, isso sim. - Ele disse sorrindo pra mim.
- Ah, essa é a Nathalia, Nathy, e essa é a Fabiana, Fabí.
- Oi Nathy e Fabí. - Ele disse com aquele sorriso.
- Oi. - Respondi tímida.
- Oi. - Disse Fabí com um enorme sorriso de quem está fazendo alguma brincadeira.
            Angélica começou a tocar e cantar. Ela tem uma linda voz. Era uma música lenta que eu não conhecia, mas Guilherme sim, ele acompanhou ela no refrão. Depois Fabí pegou o violão e começou a tocar “Malandragem” da Rita Lee. Essa todos nós cantamos. O violão ficou passando de uma para a outra, tocando mpb por um bom tempo. O campo estava vazio daquele lado, e do outro, só restaram metade dos que antes estavam jogando volei.
- Acho que a gente devia subir antes que minha mãe ligue atrás da gente. - Disse Angélica passando o violão pra Guilherme.
            Começamos a levantar, todos do vôlei olharam, e era óbvio que era por causa da Fabí. Cabelo pra baixo da cintura, preto com as pontas vermelhas, shorts jeans, meia calça preta toda rasgada, all star todo preto, regata vermelha com uma camisa social preta aberta e com as mangas dobradas até os cotovelos por cima. Guilherme levantou junto com a gente.
- Vocês tem msn? Eu gostei de vocês, seria legal continuar em contato. - Disse ele.
            Hora de começar a movimentar meu msn a tanto tempo abandonado. Depois disso demos tchau pra ele e começamos a andar. Algo segurou minha blusa por trás de leve, tão leve que eu poderia continuar andando que ia soltar e eu fingiria que nem senti. Mas eu resolvi parar. Ele estava com um enorme sorriso. Não sei como mas minha timidez desapareceu e eu abri um sorriso tão enorme quanto o dele de volta. Ele mordeu a boca e veio na minha direção. Chegou à minha frente e ficou me olhando nos olhos e sorrindo, sem dizer nada.
- Tudo bem ai? - Perguntei brincalhona, sem desviar o olhar.
- Você é linda. - Ele cochichou pra mim.
- O quê? - Perguntei confusa. Ele tinha mesmo dito aquilo? Por quê?
- Você é LINDA! - Ele repetiu e veio tentando me dar um beijo.
            Lembrei-me do Bernardo, e rapidamente liguei Bernardo a cidade grande, cidade grande a Guilherme, Bernardo a Guilherme, Bernardo a decepção. Então abaixei a cabeça apenas, e ele entendeu o recado e me deu um beijo na testa.
- Você não é como as outras garotas. - Disse.
            Eu não respondi nem ergui a cabeça. Ele veio e me abraçou por cima de meus ombros.
- Você ainda vai querer manter contato? - Perguntou.
- Por que não? - Perguntei indo para trás para olhá-lo.
- Ótimo. - Ele sorriu pra mim. Não era o mesmo sorriso, era um sorriso esnobe, metido, e simpático ao mesmo tempo.
- Vamos Nathy! - Gritou Fabí da entrada do campo e colocou a mão na boca como quem diz “ops, foi mal”, e as duas riram.
- Tchau Guilherme. - Eu disse e fiz sinal com a mão, me virei e comecei a andar.
            Quando cheguei onde as meninas estavam, olhei para trás e ele ainda estava olhando. Fiz sinal de tchau com a mão de novo. Ele levantou a mão, deu tchau, e foi onde os outros garotos estavam.

            Na frente do condomínio tinha uma pizzaria, fomos lá, compramos uma pizza de frango com catupiry e duas garrafas de coca e fomos pra casa de Angélica. Os pais dela estavam na sala assistindo televisão, e a irmã dela tinha ido dormir na casa de uma amiga. Pegamos copos e fomos para o quarto. Sentamos no chão do quarto e começamos a atacar a pizza.
- Me explica uma coisa Nathy. Como você dá um fora no Guilherme? - Perguntou Angélica.
- É verdade! O garoto é lindo de mais! Que sorriso é aquele? - Disse Fabí.
Corei. - Acho que estou traumatizada com garotos de cidade grande, ainda mais com dezessete anos. - Disse conformada olhando para a pizza.
- Seus pais tem razão de te mandar para a psicóloga. - Disse Angélica e mordeu um pedaço de pizza.
            Fabí olhou com cara de quem não estava entendendo nada.
- Que parte da história eu perdi? - Perguntou.
- Um mané chamado Bernardo! - Disse Angélica e contou toda a história.
            Fabí achou um desaforo o que o Bernardo fez comigo. Passamos a noite falando sobre desamores, decepções e, bom, garotos. Garotos do colégio também. Elas disseram que o irmão do Wesley é lindo. Bom, o Wesley é, o irmão deve ser também.
            Quando já estávamos deitadas, as três em dois colchões de solteiro no chão do quarto, começamos a falar sobre família. Fabí perguntou se eu tinha irmãos, eu disse que não, ela também não tem. A Angélica tem uma irmã que vai fazer quinze anos em duas semanas.
- Você e sua irmã tem a mesma idade por um tempo? - Perguntou Fabí.
- Bom, na verdade ela é minha prima, assim como os que estavam na sala são meus tios, não meus pais. Minha mãe morreu durante o parto, e o meu pai, quando soube que minha mãe estava grávida, sumiu. - Disse com tanta tranquilidade como se estivesse falando o que comeu no almoço, nada importante.
- Nossa, sinto muito. Eu perdi meu pai faz cinco anos. Morreu num tiroteio, graças ao trabalho abençoado dele. - Disse Fabí irônica.
- Policial? Ou traficante? - Pediu Angélica querendo desfazer o ar pesado como sempre.
- Policial, assim como minha mãe, eles se conheceram no trabalho.
- Meus pais se conheceram na feira, minha mãe estava vendendo alface com minha avó. - Eu disse e todas nós rimos.
- Eu estou com sono, são quatro horas da manhã. - Disse Fabí.
- Boa noite, bom dia sei lá. - Eu disse.
- Boa noite Nathy! - Responderam em coro.