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Q
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uando
cheguei no descampado, desci do meu cavalo e olhei em volta. Não tinha ninguém.
Então gritei! Gritei até me faltar o ar! Gritei como se alguém tivesse enfiado
uma faca no meu peito e estivesse girando-a! Gritei como se fosse a última
coisa que eu fosse fazer na vida. Então comecei a chorar. Soluçava tanto que
mal sobrava espaço para respirar. Me larguei no chão, sem forças nem para olhar
se Zeus ainda estava alí ou se tinha fugido assustado com meus gritos. A única
coisa que consegui fazer foi colocar as mãos em minha cabeça, segurar forte
meus cabelos, como se fosse arrancá-los de mim, e continuar chorando e
gritando. Quando os gritos diminuíram e só restavam as lágrimas, Zeus empurrou
meu ombro de leve com o focinho.
- Ele é
um idiota Zeus, ele não me ama. Ele mentiu pra mim. - Disse sem nem olhá-lo.
Novamente, empurrou meu ombro de
leve com o focinho.
- O que
foi Zeus? Me deixa vai. - Disse chorando.
Repetiu o gesto mais uma vez.
- O que
é? - Perguntei me cansando daquilo já. Quando olhei-o ele correu para longe e
voltou, chamando-me para galopar com ele. Talvez fosse uma boa ideia.
Montei, corremos tão rápido que tive
que fechar os olhos, pois o vento já estava machucando-os. Então, Zeus empinou num
relinche de pânico e eu cai em um monte de feno, por sorte. O que ouvi depois
foi um barulho do que parecia ser uma cobra cascavel, então entendi o desespero
de meu amigo. Quando Zeus me viu caída, imóvel, pois estava sem forças para
levantar, ele começou a correr e relinchar, e voltava para me ver, e corria
novamente, como se estivesse tentando chamar alguém para me socorrer. Eu apenas
conseguia chorar.
-
Nathalia! Nathalia! Pelo amor de Deus, fala comigo! NATHY!! - Implorava Lucas
tirando o cabelo bagunçado do meu rosto. Quando viu que eu estava chorando foi
um alívio por eu não estar desmaiada, mas o pânico voltou a sua voz. - Nathy!
Nathy! Você está bem? Esta doendo em algum lugar? Você está machucada? - Ele
percebeu, então, que não era por causa da queda que eu estava chorando. - Por
favor Nathizinha. - Disse ele com voz de quem está começando a chorar.
Atirei meus braços em volta do pescoço
dele, afundei meu rosto em seu ombro e continuei com aquela cena deprimente.
Ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me apertou contra o seu
corpo com força, como se ele fosse um escudo, e eu me senti protegida. Nenhum
mal podia me atingir enquanto ele estivesse ali.
Quando meu choro tinha acalmado-se
novamente, ele afrouxou o abraço.
- Olha
pra mim Nathalia. - Disse ele sério.
Soltei meus braços de seu pescoço e
deixei-os cair. Olhei para ele com medo de que ele me olhasse com ar de reprovação.
Ele estava com os olhos inchados e vermelhos. Ele havia chorado comigo.
Diferente do que pensei, ele não me
olhou com ar de reprovação. Ele me olhou com compaixão. Tirou o cabelo do meu
rosto, feno do meu ombro, sorriu e me abraçou de novo.
- Ouh
menininha, não faz isso comigo não. Quase me matou de susto quando te ví caída
no chão. Tá maluca é? - Me olhou nos olhos e disse: - Você não está tentando se
matar está? - Sorriu.
Eu rí e abracei-o de novo. Era tão
bom abraçá-lo. Era tão aconchegante, tão.. seguro.
- Nove
anos e eu ainda me lembro quando a Mariana chegou te puxando pelo pulso e disse
“Lucas, essa é a minha melhor amiga. O nome dela é Nathalia, mas eu chamo ela
de Nathy”. - Ele continuou com um braço na minha cintura enquanto sentava ao meu
lado, eu encostei minha cabeça no ombro dele. Algumas lágrimas ainda insistiam
em sair, mesmo eu não querendo-as. - Eu pensei: “Nossa! Como uma menina de seis
anos consegue ser tão linda? Ela é radiante!”. Eu tinha acabado de descobrir o
significado da palavra “radiante”, e achei o momento perfeito para usá-la.
Quando você caiu da árvore, aquele dia que a gente fugiu pra comer goiaba, eu
nem sabia que você tinha torcido o pé, fui saber só quando chegamos na casa da
Mari e você tentou andar. Lembro também de um dia que a Mari ficou brava comigo
porque eu não quis namorar com ela, ela ficou uma fera. Depois eu pedi
desculpas, mas ela se fez de difícil, então falei que se ela me desculpasse, eu
lhe contaria um segredo. Ela desculpou, então eu cheguei no ouvido dela e
disse: “a Nathalia é a menina mais linda que eu já ví na vida, acho que eu amo
ela”. Ela ficou uns três meses sem falar comigo. Isso eu tinha uns dez anos e
vocês oito. Quando vocês duas tinham dez anos, eu já sabia muito bem o que eu
sentia por você. Eu ficava nervoso quando você chegava, eu não tirava os olhos
de você, e sempre que podia dava um jeito de esbarrar minha mão na sua. Você
foi na casa da Mari se arrumar para a formatura da quarta série de vocês, e eu
estava na sala esperando. Quando você apareceu, com aquele vestidinho rosa,
nossa! Eu sonhei com aquela imagem umas três noites seguidas. Eu peguei uma
foto que sua mãe me deu de você, Mari e eu na formatura, cortei a Mari, e
coloquei, eu e você, dentro do meu travesseiro. - Riu mais uma vez. - A Mari
vivia comprando roupas iguais as tuas e falando pra mim “viu? Essa blusa é
igual a da Nathy, é bonita?”. Minha vontade era falar “é linda! Quando está
nela!”, mas ela ficaria brava comigo de novo, então só falava “É”. Até meus
quinze anos eu nem olhava pra Mariana, como mulher. Ela era aquela pirralhinha
que eu conheci quando ela tinha dois anos, mas, eu não tinha coragem de te
falar nada, e você não me dava bola. Eu não te esqueci, mas quando ouvi ela
falando pro Bernardo que ele devia te conquistar e ele gostando da ideia, eu
desisti de esperar você me notar, e como a uns dois anos atrás, durante uma
brincadeira, eu roubei um beijo da Mariana, eu resolvi tentar ficar com ela.
Também porque eu sabia que ela ia me fazer sair com vocês, e eu não ia aguentar
te ver com ele, e estando com ela, eu tinha uma desculpa pra sair de perto. -
Ele ficou um tempo em silêncio, e vendo que eu não falava nada ele tentou
amenizar a situação. - Daí eu ví que a Mariana era uma pessoa legal, e que
gostava muito de mim, e já que eu não podia ter quem eu amava, eu merecia
alguém que me amasse. Eu não sabia que o Bernardo tinha uma namorada, achei
muita covardia e...
- Não
vamos falar nele tá? - Interrompi, como se só tivesse ouvido essa parte.
- Tudo
bem.
O silêncio reinou até que eu tive
coragem de quebrá-lo.
- Por que
você me contou tudo isso? Por que, agora? - Perguntei confusa.
- Eu não
sei, estava entalado, eu precisava contar. Desculpa. - Disse ele olhando para
os próprios pés, com ar de submissão, como eu nunca havia visto nos nove anos
que a gente se conhece.
- Não me
pede desculpas, você não fez nada errado. Bom, me desculpa você, não foi nesse
sentido que eu quis dizer, eu só não entendo por que demorou tanto tempo.
- Eu
também não sei. Mas, não importa não é mesmo? Eu estou com a Mariana agora. -
Disse como se fosse obrigação dele estar com ela.
Senti uma gota de água pingando em
meu braço.
- Está
começando a chover, acho melhor você ir se proteger em casa.
- E você,
se não for logo não vai mais, seu carro vai atolar.
- O carro
do meu pai atolar? Aquilo é pior que trator! - Rimos. - E se atolasse, eu teria
uma desculpa para ficar por aqui e cuidar para você não sair caindo de cavalos
por ai. - Rimos.
Fui direto para meu quarto quando
cheguei em casa. Tomei um banho bem demorado, coloquei meu pijama e quando
deitei, ví uma flor que o Bernardo havia me dado à uns dois dias atrás e que eu
coloquei num copo com água ao lado da minha cama.
Sim, comecei a chorar novamente.
Peguei aquele copo com água, flor e tudo e lancei na parede ao lado da porta.
Nesse mesmo instante minha mãe abriu a porta.
-
Nathália, a gente precisa conversar. - Ela disse séria.
- Amanhã
eu limpo mãe. - Respondi virando de costas pra ela na cama.
- Não é
sobre o copo. Nem sobre Bernardo.
- Não dá
pra deixar pra amanhã? - Perguntei com sono.
- Não!
Porque amanhã você vai ter que levantar arrumando o quarto, pois nós vamos nos
mudar para um sítio menor do que esse, na capital.
- Sério?
Nós vamos embora daqui? - Disse sentando na cama.
Isso era ótimo! Uma nova vida. Sem
Bernardo, sem Mariana, sem Lucas, sem namorado de ex melhor amiga se
declarando, sem lembranças. Um novo começo. Ótimo! Ótimo mesmo! Finalmente algo
bom nesse dia horrível.
- Agora
dorme, que amanhã o dia vai ser longo.
- Boa
noite mãe.