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Então vá até o capítulo 1 para acompanhar toda a história de Nathália em Bem Vindo a Refúgio!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Capítulo 6


Q
uando cheguei no descampado, desci do meu cavalo e olhei em volta. Não tinha ninguém. Então gritei! Gritei até me faltar o ar! Gritei como se alguém tivesse enfiado uma faca no meu peito e estivesse girando-a! Gritei como se fosse a última coisa que eu fosse fazer na vida. Então comecei a chorar. Soluçava tanto que mal sobrava espaço para respirar. Me larguei no chão, sem forças nem para olhar se Zeus ainda estava alí ou se tinha fugido assustado com meus gritos. A única coisa que consegui fazer foi colocar as mãos em minha cabeça, segurar forte meus cabelos, como se fosse arrancá-los de mim, e continuar chorando e gritando. Quando os gritos diminuíram e só restavam as lágrimas, Zeus empurrou meu ombro de leve com o focinho.
- Ele é um idiota Zeus, ele não me ama. Ele mentiu pra mim. - Disse sem nem olhá-lo.
            Novamente, empurrou meu ombro de leve com o focinho.
- O que foi Zeus? Me deixa vai. - Disse chorando.
            Repetiu o gesto mais uma vez.
- O que é? - Perguntei me cansando daquilo já. Quando olhei-o ele correu para longe e voltou, chamando-me para galopar com ele. Talvez fosse uma boa ideia.
            Montei, corremos tão rápido que tive que fechar os olhos, pois o vento já estava machucando-os. Então, Zeus empinou num relinche de pânico e eu cai em um monte de feno, por sorte. O que ouvi depois foi um barulho do que parecia ser uma cobra cascavel, então entendi o desespero de meu amigo. Quando Zeus me viu caída, imóvel, pois estava sem forças para levantar, ele começou a correr e relinchar, e voltava para me ver, e corria novamente, como se estivesse tentando chamar alguém para me socorrer. Eu apenas conseguia chorar.
- Nathalia! Nathalia! Pelo amor de Deus, fala comigo! NATHY!! - Implorava Lucas tirando o cabelo bagunçado do meu rosto. Quando viu que eu estava chorando foi um alívio por eu não estar desmaiada, mas o pânico voltou a sua voz. - Nathy! Nathy! Você está bem? Esta doendo em algum lugar? Você está machucada? - Ele percebeu, então, que não era por causa da queda que eu estava chorando. - Por favor Nathizinha. - Disse ele com voz de quem está começando a chorar.
            Atirei meus braços em volta do pescoço dele, afundei meu rosto em seu ombro e continuei com aquela cena deprimente. Ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me apertou contra o seu corpo com força, como se ele fosse um escudo, e eu me senti protegida. Nenhum mal podia me atingir enquanto ele estivesse ali.
            Quando meu choro tinha acalmado-se novamente, ele afrouxou o abraço.
- Olha pra mim Nathalia. - Disse ele sério.
            Soltei meus braços de seu pescoço e deixei-os cair. Olhei para ele com medo de que ele me olhasse com ar de reprovação. Ele estava com os olhos inchados e vermelhos. Ele havia chorado comigo.
            Diferente do que pensei, ele não me olhou com ar de reprovação. Ele me olhou com compaixão. Tirou o cabelo do meu rosto, feno do meu ombro, sorriu e me abraçou de novo.
- Ouh menininha, não faz isso comigo não. Quase me matou de susto quando te ví caída no chão. Tá maluca é? - Me olhou nos olhos e disse: - Você não está tentando se matar está? - Sorriu.
            Eu rí e abracei-o de novo. Era tão bom abraçá-lo. Era tão aconchegante, tão.. seguro.
- Nove anos e eu ainda me lembro quando a Mariana chegou te puxando pelo pulso e disse “Lucas, essa é a minha melhor amiga. O nome dela é Nathalia, mas eu chamo ela de Nathy”. - Ele continuou com um braço na minha cintura enquanto sentava ao meu lado, eu encostei minha cabeça no ombro dele. Algumas lágrimas ainda insistiam em sair, mesmo eu não querendo-as. - Eu pensei: “Nossa! Como uma menina de seis anos consegue ser tão linda? Ela é radiante!”. Eu tinha acabado de descobrir o significado da palavra “radiante”, e achei o momento perfeito para usá-la. Quando você caiu da árvore, aquele dia que a gente fugiu pra comer goiaba, eu nem sabia que você tinha torcido o pé, fui saber só quando chegamos na casa da Mari e você tentou andar. Lembro também de um dia que a Mari ficou brava comigo porque eu não quis namorar com ela, ela ficou uma fera. Depois eu pedi desculpas, mas ela se fez de difícil, então falei que se ela me desculpasse, eu lhe contaria um segredo. Ela desculpou, então eu cheguei no ouvido dela e disse: “a Nathalia é a menina mais linda que eu já ví na vida, acho que eu amo ela”. Ela ficou uns três meses sem falar comigo. Isso eu tinha uns dez anos e vocês oito. Quando vocês duas tinham dez anos, eu já sabia muito bem o que eu sentia por você. Eu ficava nervoso quando você chegava, eu não tirava os olhos de você, e sempre que podia dava um jeito de esbarrar minha mão na sua. Você foi na casa da Mari se arrumar para a formatura da quarta série de vocês, e eu estava na sala esperando. Quando você apareceu, com aquele vestidinho rosa, nossa! Eu sonhei com aquela imagem umas três noites seguidas. Eu peguei uma foto que sua mãe me deu de você, Mari e eu na formatura, cortei a Mari, e coloquei, eu e você, dentro do meu travesseiro. - Riu mais uma vez. - A Mari vivia comprando roupas iguais as tuas e falando pra mim “viu? Essa blusa é igual a da Nathy, é bonita?”. Minha vontade era falar “é linda! Quando está nela!”, mas ela ficaria brava comigo de novo, então só falava “É”. Até meus quinze anos eu nem olhava pra Mariana, como mulher. Ela era aquela pirralhinha que eu conheci quando ela tinha dois anos, mas, eu não tinha coragem de te falar nada, e você não me dava bola. Eu não te esqueci, mas quando ouvi ela falando pro Bernardo que ele devia te conquistar e ele gostando da ideia, eu desisti de esperar você me notar, e como a uns dois anos atrás, durante uma brincadeira, eu roubei um beijo da Mariana, eu resolvi tentar ficar com ela. Também porque eu sabia que ela ia me fazer sair com vocês, e eu não ia aguentar te ver com ele, e estando com ela, eu tinha uma desculpa pra sair de perto. - Ele ficou um tempo em silêncio, e vendo que eu não falava nada ele tentou amenizar a situação. - Daí eu ví que a Mariana era uma pessoa legal, e que gostava muito de mim, e já que eu não podia ter quem eu amava, eu merecia alguém que me amasse. Eu não sabia que o Bernardo tinha uma namorada, achei muita covardia e...
- Não vamos falar nele tá? - Interrompi, como se só tivesse ouvido essa parte.
- Tudo bem.
            O silêncio reinou até que eu tive coragem de quebrá-lo.
- Por que você me contou tudo isso? Por que, agora? - Perguntei confusa.
- Eu não sei, estava entalado, eu precisava contar. Desculpa. - Disse ele olhando para os próprios pés, com ar de submissão, como eu nunca havia visto nos nove anos que a gente se conhece.
- Não me pede desculpas, você não fez nada errado. Bom, me desculpa você, não foi nesse sentido que eu quis dizer, eu só não entendo por que demorou tanto tempo.
- Eu também não sei. Mas, não importa não é mesmo? Eu estou com a Mariana agora. - Disse como se fosse obrigação dele estar com ela.
            Senti uma gota de água pingando em meu braço.
- Está começando a chover, acho melhor você ir se proteger em casa.
- E você, se não for logo não vai mais, seu carro vai atolar.
- O carro do meu pai atolar? Aquilo é pior que trator! - Rimos. - E se atolasse, eu teria uma desculpa para ficar por aqui e cuidar para você não sair caindo de cavalos por ai. - Rimos.

            Fui direto para meu quarto quando cheguei em casa. Tomei um banho bem demorado, coloquei meu pijama e quando deitei, ví uma flor que o Bernardo havia me dado à uns dois dias atrás e que eu coloquei num copo com água ao lado da minha cama.
            Sim, comecei a chorar novamente. Peguei aquele copo com água, flor e tudo e lancei na parede ao lado da porta. Nesse mesmo instante minha mãe abriu a porta.
- Nathália, a gente precisa conversar. - Ela disse séria.
- Amanhã eu limpo mãe. - Respondi virando de costas pra ela na cama.
- Não é sobre o copo. Nem sobre Bernardo.
- Não dá pra deixar pra amanhã? - Perguntei com sono.
- Não! Porque amanhã você vai ter que levantar arrumando o quarto, pois nós vamos nos mudar para um sítio menor do que esse, na capital.
- Sério? Nós vamos embora daqui? - Disse sentando na cama.
            Isso era ótimo! Uma nova vida. Sem Bernardo, sem Mariana, sem Lucas, sem namorado de ex melhor amiga se declarando, sem lembranças. Um novo começo. Ótimo! Ótimo mesmo! Finalmente algo bom nesse dia horrível.
- Agora dorme, que amanhã o dia vai ser longo.
- Boa noite mãe.