Novo por aqui?

Então vá até o capítulo 1 para acompanhar toda a história de Nathália em Bem Vindo a Refúgio!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Capítulo 9


- Não mãe, tá muito curta! - Eu disse.
- Não está não! Está linda. Por favor, leva? - Implorou.
- Aaah! Tá bom!
            Minha mãe chegou pra me buscar meio dia e quarenta, a hora que termina a aula, tirando o fato que minha última aula era vaga. Almoçamos ali no centro, perto do meu colégio, e depois fomos comprar meu uniforme.
            Todas as camisetas, digo, camisas, eram pretas, pra não ter desfile de sutiã colorido como disse a vendedora. Para a parte de baixo, saia xadrez vermelha e preta. Para os pés, meião branco até o joelho e aqueles sapatinhos. Não, eu não estou em um filme, nem novela mexicana e nem nos EUA. A diretora foi criada no Japão e usa no colégio o mesmo modelo de uniforme de lá, bom, sem as gravatas, ainda bem. Como não dá para fazer educação física de saia, tive que comprar uniforme pra isso também. Camiseta vermelha e shorts preto. Minha mãe não quis comprar legue, disse que eu tenho que parar de ter vergonha do meu corpo. Agasalho nós iríamos comprar mais para frente, e não precisava ser do colégio. As meias e o sapato não eram obrigatórios, mas minha mãe insistiu em comprar porque é "fofo". Eu mereço.
- Então, a sua coordenadora me disse tem um ônibus que pega alunos até um sítio depois do nosso, e só custa oitenta reais, então eu já assinei contrato. O que acha de ensinarmos o Zeus a te levar até a estrada e voltar para casa? - Perguntou minha mãe quando já estávamos no caminho de casa.
- Eu preferiria que você me levasse de carro né. Ter que acordar mais cedo pra colocar a cela e cavalgar de saia não vai ser a coisa mais confortável do mundo, mas tudo bem. - Disse fingindo não gostar da ideia.
- Vamos fazer um trato, eu coloco a cela enquanto você se arruma, assim, você não precisa acordar mais cedo. E coloco uns panos a mais na cela pra ficar menos desconfortável a história da saia. Melhor pra você? - Disse ela sorrindo.
- É, acho que melhora sim, temos um trato. - Rimos. - Ah, mãe... Eu preciso de trinta reais. - Pedi rápido.
- Pra...? - Ela perguntou desconfiada.
- Comprar a camiseta do basquete, lembra que eu me matriculei? - Expliquei.
-Ah sim, claro, mas... pede pro seu pai. - Disse piscando e saindo do carro. Já estávamos em casa.
            No dia seguinte minha mãe foi comigo até a estrada para trazer Zeus de volta, e me esperaria lá na hora do almoço.
- Bom dia, Nathalia né? - Disse o motorista do ônibus.
- Bom dia, é sim. - Respondi sorrindo.
- Fique a vontade. - Disse ele fechando a porta atrás de mim.
O ônibus estava vazio, exceto por um garoto dormindo no fundo do ônibus. Sentei no primeiro banco. O ônibus pegou mais oito alunos em sítios e chácaras antes de entrar na cidade. Parece que eu ocupei o último lugar vazio do ônibus. A garota que senta na minha frente na sala de aula foi quem sentou do meu lado. Ela entrou no ônibus bem no começo da cidade, mas já estava praticamente lotado.
- Oi. Eu sou Angélica, você é a Nathalia né? A garota nova da minha sala, que sentou atrás de mim ontem e eu tive vergonha de conversar? - Ela disse tímida.
- Acho que sim. - Rimos.
- Eu adorei o jeito que você falou com a Jéssica, aquela nojenta, eu O-D-E-I-O ela! - Ela disse com ar de “você é o meu herói”.
- Só estava me defendendo. - Sorri.
- Eu te ví saindo do ginásio ontem, se matriculou no basquete? - Perguntou.
- Sim e você?
- Também! - Disse entusiasmada.
Eu e Angélica fomos conversando até o ginásio. A primeira aula era educação física, então fomos para o vestiário nos trocar.
 - Oi novata, oi fofa. - Disse Jéssica assim que entramos. Suas cópias riram.
Angélica abaixou a cabeça e foi para o outro corredor do vestiário.
- Olá Barbie. - Respondi, e ela e suas cópias me olharam com cara de nojo (mais que o normal se é que é possível) e deram um sorrisinho falso. Angélica sorriu.
            A Angélica não era fofa no sentido que Jéssica insinuou. Ela era magra, a única coisa era que ela não tinha muita cintura, tinha pernas grossas, mas malhadas, eram bonitas, mas dava pra perceber que ela tinha vergonha. Ela sempre andava de cabeça baixa, e com os ombros curvados, como se estivesse se escondendo.
Fomos para a aula, eu estava morrendo de vergonha de usar aquele micro shorts. Mas não tinha outra opção.
- Bom dia galera, eu sou o novo professor de educação física. Meu nome é Ronaldo. - Cochichos, zoações e “UHULs”. - Sem piadinhas ok? Descobri que tem um time de basquete aqui, estou certo?
- Está sim senhor. - Disse um tal de Fabrício, o que parecia ser o “líder” do grupinho do fundo. Ele sempre estava na frente, e era o mais bonito. Tinha cabelos curtos e loiros, olhos azuis bem claros e um sorriso lindo. Alguma coisa no sorriso dele me fez lembrar do Bernardo, o que me fez abaixar a cabeça e fechar os olhos antes que alguma lágrima idiota caísse.
- Quem faz parte? - Perguntou o professor.
- Eu, o Ricardo, o Geovane e o Wesley, dessa sala. - Sempre respondendo como líder.
- E do treino? Quem participará esse ano? Quem se matriculou já?
            Todo o grupo de meninos do fundo, o que totalizava sete (os quatro do time e três garotos do meio da sala), eu, Angélica, e uma garota meio gótica. Ela usava batom preto, era super branca, usava uma munhequeira de banda de rock e maquiagem preta pesada nos olhos.
- Fabiana, até ano passado ela andava com um grupo de pessoas como ela, só que eles se formaram e agora ela anda sozinha. Bom, na verdade ela não andava com eles, ela os seguia, eles raramente falavam com ela ou a chamavam para alguma coisa. - Disse Angélica.
- Eu gostei do estilo dela. - Respondi.
- Você é louca. - Disse ela rindo.
- Por favor, quero que os garotos do basquete se dividam em dois grupos. E os garotos que não fazem parte do basquete dividam-se nesses dois grupos.
- Professor? Nós podemos animar o jogo se você quiser. - Disse Jéssica querendo se aparecer.
- Ah, as líderes de torcida. Claro meninas, mas só o jogo dos garotos, porque vocês também vão jogar. Meninas do basquete, vocês já faziam ou vão começar esse ano?
Todas nós éramos novas.
- Então comecem um grupo, e as líderes de torcida o outro. Isso vai ser legal. - A última parte ele disse pra si mesmo. - Comecem o jogo boys. - E jogou a bola.
- Oi colegas. - Disse Fabiana sentando atrás da gente.
Angélica me olhou assustada.
- Oi Fabiana, tudo bem? Quem joga bem da sala pra chamarmos pro nosso time? - Respondi sorrindo.
- Me chama de Fabí, Fabiana parece que eu fiz algo de errado. - Rimos. - Então, todas as meninas jogam mal, inclusive eu, a Angélica é prova disso, mas eu enjoei do teatro, fazia desde a quinta série e sempre era a mesma coisa. As únicas que eu não gostaria de ter no mesmo time são as galinhas, quero dizer, as líderes de torcida, mas elas já estão no outro time. - Rimos mais uma vez.
- Eu também não gosto das Barbies.
- É um apelido menos sincero que galinhas.
            Até a Angélica já estava rindo e conversando com a Fabí.
            Paramos de conversar para assistir o jogo. Os garotos do time realmente eram bons. No meio do jogo, o Wesley passou pela nossa frente, me olhou, sorriu e deu tchauzinho. As meninas ficaram me zoando até a hora que a gente foi jogar. Realmente elas não jogavam bem. O time das Barbies fez quatro cestas. As Barbies tinham medo da bola, quando alguém passava pra elas, elas gritavam e pulavam pro lado, então pra provocar, eu sempre fazia o passe por cima da cabeça delas. Não é maldade! O nosso time fez doze cestas, sendo nove, minhas.
- Ual, onde você aprendeu a jogar daquele jeito? - Wesley perguntou no final do jogo, antes de irmos para os vestiários tomar banho.
- No sítio que eu morava até três dias atrás, quando eu tinha cinco anos, meu pai improvisou uma quadra de basquete, com uma cesta só. Quando ele não estava com as máquinas dele, nem dormindo, nós ficávamos brincando lá. Não era nada de mais. - Mas, modéstia a parte, eu jogava melhor que aquelas garotas ali. Pelo menos melhor que as Barbies.
- Você é muito boa, só que seria melhor se parasse de ficar abaixando as pernas do shorts no meio do jogo. - Disse sorrindo.
- Ei! - Falei alto.
- Calma, isso atrapalha seu jogo, você perdeu dois passes por causa disso. Acha o que? Que eu quero ver suas pernas, por isso falei pra parar de abaixar o shorts? - Disse rindo.    Eu corei e olhei pra ele como que diz um grande “cala a boca”.
- Seu short é bem curto, não precisa mostrar mais, fica tranquila.
- Cala a boca!
 - Relaxa, só estou brincando, mas é curto. Mas os das líderes de torcida são mais, ainda bem. - Disse rindo.
- Ok, eu desisto de você. Até mais Wesley. - Disse indo pro vestiário.
- A perna direita do shorts tá mais curta que a outra, dá uma puxadinha. - Disse piscando.
- VAI TOMA BANHO!! - Gritei.
- Sim senhora. - Deu um sorrisinho de lado e entrou no vestiário.
            Palhaço. Estou da cor da minha camiseta. Obrigada.
         As aulas opcionais essa semana seriam livres.




terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Capítulo 8


V
estida com um macacão jeans até o joelho, com uma regata branca por baixo, de tênis preto e com o cabelo preso em uma trança, segui para o meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levou com a caminhonete vermelha, pra não chamar a atenção, claro. Tivemos que entrar pela secretaria, já que eu era nova ali e não tinha meu horário.
- Bom dia, gostaria de falar com a coordenadora do ensino médio. - Disse minha mãe para a recepcionista. Uma moça simpática, de óculos vermelhos iguais aos cabelos.
- Aluna nova é? - Disse sorridente me olhando de cima a baixo.
- Sim. - Respondi tímida.
- Acompanhem-me. - Disse ela levantando-se e abrindo a porta para nós.
Caminhamos por um longo corredor até chegarmos em uma sala escrito "coordenação".
- Jaqueline, sua aluna nova. - Disse a recepcionista para a minha nova coordenadora, a Jaqueline.
- Oh! Seja bem vinda Nathalia. Enquanto eu pego seus horários, a senhora - Agora se referia a minha mãe. - poderia ir assinando o contrato, por favor.
Ela voltou e me entregou um papel assim:

2º Ano letivo do ensino médio. Turma C. Sala 302. Bloco D.
Segunda-Feira
Terça-Feira
Quarta-Feira
Quinta-Feira
Sexta-Feira
Matemática
Biologia
Filosofia
História
Ed. Física
Matemática
Biologia
Filosofia
História
Ed. Física
Química
Física
Português
Sociologia
-banho-
intervalo
Química
Física
Português
Sociologia
Matemática
Informática
Inglês
Geografia
Português
Opcional
Informática
Inglês
Geografia
-livre-
Opcional

- Bom, só pra você se localizar, no bloco A é a secretaria, sala dos professores, diretoria, coordenação, xérox, isso tudo está aqui. No bloco B estão, laboratórios de informática, de química, de biologia etc. No bloco C estão as salas do ensino fundamental. No bloco D, que é o seu, estão as salas de ensino médio. No bloco E, o auditório, ou anfiteatro, e as salas de cursinho pré-vestibular e no bloco F estão a quadra esportiva, o ginásio e o refeitório. Espero que não se perca. - Disse rindo. - Venha comigo, te levarei até sua sala.
- Ok. Tchau mãe, até o final da aula.
- Tchau Nathy.
            Saímos daquele bloco e fomos por um corredor aberto, passamos pelo bloco F que ficava de frente para o bloco C. Depois desses blocos havia um imenso saguão. De um lado do saguão era o bloco D, do outro o E e nos fundos, ou frente, não sei, de frente para o corredor, havia uma imensa porta de vidro escrito “REFEITÓRIO”. Não era difícil se localizar ali. Entramos pelas portas que indicavam “BLOCO D”, subimos as escadas até o segundo andar e viramos à direita. Na primeira porta estava escrito “2º C”. Parecia que tinha jogado, de repente, um balde inteiro de gelo na minha barriga.       Respirei fundo, e acho que a Jaqueline percebeu.
- Calma garota, vai dar tudo certo. - E bateu duas vezes na porta.
- Olá! - Disse um homem simpático, abrindo a porta.
            Eu não adivinharia que ele é um professor, ainda mais de história, se não fosse pelo guarda-pó escrito “Marcelo – História”. Ele era loiro, alto, magro, olhos verdes escuros, com um sorriso muito convidativo, até de mais para um professor.
- Olá professor, desculpe atrapalhar sua aula, vim trazer uma aluna nova, esta é a Nathalia.
- Que incomodar, imagina Jaque, estava perguntando como foram as férias da turma. Seja bem vinda Nathalia. Venha conhecer sua turma. - Disse Marcelo para mim.
            A sala toda estava em silêncio, provavelmente olhando para a porta, mas assim como eu não podia vê-los, eu estava fora do alcance de visão deles. Graças a Deus.
            Entrei de cabeça baixa na sala, antes de conseguir olhar para alguém. Assim que entrei Marcelo fechou a porta.
- Galera, essa é a nova colega de vocês. O nome dela é Nathalia. Vocês já sabem o que tem que fazer quando chega alguém novo então está tudo bem. - Disse Marcelo piscando para a turma. - Pode sentar onde quiser Nathalia, de preferência onde não tenha ninguém, mas, se quiser a gente dá um jeito. Bem vinda de novo. - Repetiu.
            Olhei para o fundo da sala. Totalmente lotado. Um canto de garotas maquiadas, com uniformes justos e cabelos pintados. O outro com garotos, na maioria deles eram bonitos, com porte atlético e cabelos bem penteados. E o fundo do meio, bom, com todo tipo de gente. Em uma sala de quarenta e cinco alunos se acha gente de todo tipo mesmo. Olhei para as carteiras da frente. Lotadas. Garotos e garotas com o uniforme no lugar, alguns com óculos, quietos. Típicos nerds. Acho que sobrou o meio. Sentei na segunda fila, na quarta carteira. Era a que tinha menos gente em volta. Só tinha um garoto do meu lado direito, que não conversava muito com as pessoas em volta, e na minha frente, uma garota de cabelos curtos bem pretos.
            A primeira aula inteira o professor Marcelo passou perguntando sobre as férias, contando da viagem dele ao litoral e ao nordeste. O sinal era super alto. Dei um pulo na cadeira quando tocou.
- É o seguinte. Como eu conheço os outros professores de vocês e sei que são uns chatos, - Disse cochichando. - então vou deixar essa aula pra vocês conversarem, conhecerem quem vocês não conhecem, colocar o papo em dia e etc. Mas na próxima aula venham preparados para muito conteúdo em.
            Assim que ele terminou de falar, metade da sala começou a levantar, ir um pra carteira do outro, começaram a conversar, ouvir música, até a garota da minha frente começou a conversar com os nerds ali da frente.
- Hey Nathalia.- Disse alguém atrás de mim.
- Oi. - Disse olhando para trás.
            Era um garoto que sentava do outro lado da sala. Tinha aparência de estudioso, mas não nerd.
- Meu nome é Jorge, eu sou o líder da turma. Vim te dar as boas vindas em nome da turma.
- Obrigada. - Respondi sorrindo.
- Bom, aproveitando o momento já vou adiantar algumas coisas. Você já recebeu seu horário né?
- Sim, sim.
- Então, aquela aula semanal que está escrito “opcional”, bom, ela é obrigatória. - Rimos. - O opcional é o que você vai fazer naquelas aulas. Tem vários cursos aqui no colégio que são de graça, na verdade não são de graça, mas o custo já está incluso na mensalidade. Temos uma semana pra escolher um e nos matricularmos, mas no seu caso você tem dois dias.
- Ótimo. - Rimos.
- Tá, os cursos que tem são teatro, coral, líder de torcida, basquete e informática. O teatro é no anfiteatro, o coral na sala de música que fica atrás dos camarins do anfiteatro, lideres de torcida ficam na quadra de esportes, basquete no ginásio e informática no laboratório de informática, claro. Como irmão do professor digo que você é muito bem vinda no curso de informática. - Disse querendo me convencer a escolher seu curso.
- Obrigada mas, eu não tenho jeito com computadores. Na verdade com nenhum dos cursos eu tenho jeito. Vai ser uma decisão difícil. Aceitam meninas no basquete?
- Claro, apesar de só terem três matriculadas.
- Pelo menos não serei a única.
            Ele ficou meio chateado por eu não ter escolhido a turma de informática, mas levou numa boa.
- Jorge! Me ajuda aqui. O vídeo não quer abrir. - Disse uma garota do outro lado da sala com um notebook sobre a mesa e duas garotas do lado.
- Com licença, vou ajudar as garotas. - Disse piscando e foi para onde o chamavam.
            Virei para frente e fiquei quieta, todos estavam conversando, menos o garoto do meu lado. Ele estava com fones de ouvido em volume alto, eu quase podia entender a música que estava tocando. Ele estava com os braços cruzados, a cabeça para trás e olhos fechados. A única coisa que indicava que ele não estava dormindo eram seus pés batendo no chão em ritmo de música.
            Abri meu caderno na última folha e comecei a desenhar. A primeira coisa que me veio na mente foi um parque de diversões, então, com a maior inocência comecei a desenhar uma roda gigante, e no topo, havia um casal apaixonado. Então caiu a ficha, e junto com ela uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Não! Este não era nem o lugar nem o momento para isso.
- Você esta chorando? - Perguntou o garoto do meu lado tirando os fones.
- Não, só uma lágrima à toa. Não é nada importante. - Respondi secando-a.
- Então, Nathalia, meu nome é Wesley.
- Prazer. - Respondi sorrindo.
- Desculpa mas, eu ouvi a sua conversa com o Jorge, você tá pensando mesmo em se matricular no basquete?
- Bom, informática nem pensar, eu não canto, tenho muita vergonha pra me meter no teatro e líderes de torcida, bom, não rola. Basquete é uma última salvação. Você vai fazer o quê? - Perguntei.
- Deixa eu pensar. Basquete. Desde que entrei nesse colégio na quinta série. Meu irmão mais velho é o capitão do time, o treinador é meu pai e o melhor depois do meu irmão é o meu primo, aquele de uniforme de basquete lá no fundo, o loiro de cabelo comprido. Eu não tenho muitas opções.
- E eu preocupada de não saber o que fazer. - Rimos.
- Por mim eu estava no teatro, mas meu pai diz que não aceita um filho com maquiagem, e ele quer que eu seja o capitão do time ano que vem quando meu irmão não estiver mais aqui.
- Já que é um fardo pra você, vou te ajudar a carregar então.
- Ótimo! Alguém que eu não queira quebrar os dentes com a bola vai ser legal. - Rimos.
- Hey garota nova. - Disse uma voz fina e enojada do meu outro lado.
- Oi. Meu nome é Nathalia. - Eu odiava quando alguém que não me conhecia me chamava de algo que não fosse meu nome quando já sabia. Ainda mais se esse alguém usa uniforme colado, maquiagem de casamento e perfume enjoativo.
- Uhm, desculpe, Nathalia. Meu nome é Jéssica. Eu sou a líder das lideres de torcidas. - Disse com ar de “olha pra mim, eu sou o máximo não sou?”.
“Deu pra perceber”, pensei.
            Fiquei olhando pra ela com expectativa pra saber o que ela queria comigo. E ela me olhando com ar de “ee...?”.
- Parabéns, deve ser muita responsabilidade. - Falei e pensei “muita mesmo, colocar um bando de meninas semi nuas pulando e cantando coisa idiotas como “me dá um B! B! me dá um A! Á!...”.”
- É sim. - Disse orgulhosa de si mesma. - Bom, você já deve estar sabendo das aulas opcionais, então, nós estamos abrindo os testes para recrutar novas líderes de torcida, e gostaria de te convidar para fazer o teste.
“Nossa, que gentil da parte dela, acho que fui um pouco rude com meus primeiros pensamentos a respeito dela”, pensei. Então sorri.
- Mas, se você se matricular, bom, você tem um físico bom, um rosto bonito mas, vamos ter que atualizar seu guarda roupas e comprar umas maquiagens pra você, é claro, afinal, pra andar com a gente tem que... como posso dizer, estar na moda. - Disse com um sorrisinho sem graça.
- Ah sim, parecer uma Barbie. Não obrigada, já escolhi meu curso. - Disse e me virei pra voltar a conversar com Wesley, que estava segurando o riso.
            Eu O-D-I-E-I aquela Barbie falsificada falando mal das minhas roupas e falando que eu preciso de maquiagem. Posso ter algumas espinhas e imperfeições mas e daí? Preciso viver escondendo? Como se adiantasse! Eu não preciso usar uma mascara. Não estou aqui pra chamar a atenção de ninguém! Isso aqui é um colégio não um desfile. Ok, amanhã venho de longo e salto alto, está bom pra você Jéssica? Sim! Eu estou revoltada.  Não!! Eu N-Ã-O estou na tpm caramba.
- Para de rir! - Disse sorrindo para Wesley.
- Desculpa. - Tempo segurando o riso. - Adorei você insinuando que ela parece uma Barbie. Acho que vamos nos dar bem.
- Ninguém ouviu o sinal não? Quase uma semana de aula e vocês ainda não pararam de conversar? - Disse uma senhora com um guarda pó, quero dizer, a professora de sociologia. Velha, corcunda, cabelo mal pintado de vermelho, sobrancelhas desenhadas com lápis de olho, contorno de boca marrom, sem batom. Uma coisa linda com voz que parecia um assobio. Meu intervalo foi sozinha no refeitório. Depois teve mais uma aula de sociologia, uma de português com a professora Luciana e a última era livre, aproveitei para me matricular no basquete e na fiquei sentada nos degraus em frente o colégio esperando minha mãe me buscar. 



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Capítulo 7



Caixas na sala de visitas, caixas na sala de estar, caixas na sala de jantar, caixas escrito "cuidado frágil" na cozinha, caixas nos quartos, caixas nos corredores, móveis desmontados... e espaço. Espaço no lugar do sofá, espaço no lugar da televisão, espaço no lugar da geladeira, espaço no lugar das camas, metade dos móveis já estavam no caminhão.
            A anos meus pais queriam mudar daquele sítio para um que fosse mais perto da capital, ou pelo menos perto de uma cidade grande da região, mas eu sempre os convencia a não fazer isso. Queria estar no meu cantinho de sempre. Na casa onde eu cresci. Onde os rabiscos de criança se escondem em baixo de camadas de tinta nas paredes. Onde uma casinha de boneca lilás com portinhas brancas descansa no quintal. Onde aprendi a andar, cavalgar, falar, nadar... Onde aprendi a ser eu. Sempre quando pensava na possibilidade de ir embora dali, meus olhos enchiam de lágrimas e meu coração apertava, mas, não agora. Sim, eu sentiria saudades. Saudades de quando nada doía ao olhar a janela da sala. Saudades de quando eu e Mariana éramos melhores amigas, e eu confiava nela, e nada podia nos separar. Saudades de um tempo onde não existia Bernardo, onde Lucas não era apaixonado por mim, onde garotos não eram um problema para mim. Talvez quando me refiro á Lucas, não esteja me expressando bem. Não acho ruim ele gostar de mim, e realmente, ele foi muito fofo comigo, mas... ele é meu melhor amigo de infância, não que isso seja um problema, mas, desde que o conheço o vejo como "da Mari". É estranho pensar em algo que envolva ele e eu. Talvez se ele tivesse contado antes. Eu não estava em um bom momento para uma declaração. Agora era tarde, além de tudo, ele estava namorando a minha ex melhor amiga, e eu estava indo embora.
            Eu estava indo embora! Isso não é bom? Não ter que me preocupar mais com isso! Alívio!
            Quando quase tudo já estava no caminhão, um carro se aproximou da nossa casa.
- Outro caso de vida ou morte? - Perguntei a Lucas quando este veio até mim.
- Vo.. você não pode ir embora! - Ele estava com lágrimas presas nos olhos. Falava baixo, como se não quisesse que alguém ouvisse.
- Oi...- Disse Mariana chegando perto de nós e segurando a mão do Lucas.
- Com licença, tenho que ajudar a arrumar o resto das coisas. - Respondi me virando.
- Espera! Eu sei que você nunca vai me perdoar mas, por favor, me dá pelo menos um abraço de tchau. Em nome desses nove anos de amizade. - Implorou Mariana dando um passo à frente de Lucas.
            Olhei para longe, olhei para Lucas que me olhava ainda com lágrimas nos olhos, olhei para meus pés. Dei um passo à frente e abracei-a sem vontade.
- Tchau. - Disse a ela.
Ela me abraçou forte e começou a chorar.
- Por favor Nathy. Eu não quis dizer aquelas coisas, foi idiotice minha. Eu devia ter deixado você escolher a hora e a pessoa certa. Ele me disse que tinha terminado com a Alice. Me perdoa por favor!!
            Eu fechei os olhos e uma lágrima escorreu. Eu não queria lembrar dele. Não mesmo.
- Para de chorar tá? Está tudo bem. Eu vou embora e não vou mais precisar lembrar disso. - Disse desprendendo-me de seu abraço, sem olhá-la nos olhos. Eu não estava preparada para dizer que lhe perdoava. Seria mentira. Não estava pronta para perdoa-la. Anda não tinha parado de doer.
- Você não me perdoou. Você não vai me perdoar nunca! Eu sou uma imbecil! O que foi que passou pela minha cabeça em?! - Disse Mariana e saiu correndo para o carro esperando que Lucas a seguisse.
- Eu admiro sua força, eu não teria conseguido abraçá-la. - Disse ele olhando para o chão e rindo um pouco para não parecer rude.
            Eu não sabia o que falar.
- Em nome de nove anos de amizade. - Eu também estava olhando para o chão.
- Sobre ontem, me desculpe, eu não devia ter dito aquelas coisas e...
- Não peça desculpas, não tem problema nisso, eu... eu... - Interrompi.
- Você? - Ele pediu uma continuação.
- Eu gostei de saber... não era um bom dia sabe? Eu estava muito abalada. Ainda estou, aliás. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Estava sem reação.
- Eu entendo. Você ia embora sem se despedir mesmo?
- Desculpe. Como... vocês souberam? - Olhei-o.
- Seus pais não sabiam que você havia brigado com a Mariana também, eles ligaram. O Bernardo queria vir junto, mas eu não deixei. - Olhou dentro dos meus olhos.
- Obrigada. Mesmo. - Meus olhos encheram e eu os desviei do olhar do Lucas.
- Eu não quero que você vá. - Disse Lucas chorando. Olhei-o assustada. - Fica aqui comigo. Por favor. - Ele pedia com ar de quem sabia que era impossível isso acontecer.
- Lucas, eu não.., - Respondi chorando, ele me interrompeu.
- Esquece. Estou pedindo de mais de você, eu vou embora. - Ele disse dando alguns passos para trás.
- Não vai. - Sussurrei em meio ás lágrimas que saiam sem permissão dos meus olhos.       Ele já havia virado de costas para mim.
            Lucas parou, virou-se novamente para mim colocou a mão em punho fechado em frente a boca, segurando o choro. Olhou para o céu antes de olhar pra mim, que chorava sem rumores, mas sem parar. Assim que me olhou, correu até mim e me abraçou. Aquele abraço forte onde eu me sentia protegida. Com a cabeça em seu ombro chorei, como no dia anterior em cima do monte de feno.
- Eu te amo tanto Nathalia. - Sussurrou - Espera aqui que eu vou buscar uma coisa que eu tenho no porta-malas pra você.
- O que está acontecendo aqui? - Ouvi Mariana dizer enquanto ele pegava a chave do carro para abrir o porta-malas.

            Ele me entregou uma sacola bem amarrada que não dava pra ver o que tinha dentro.
- Quando você chegar na sua casa nova você olha tá? - Ele disse.
- Ok. - Respondi. Não estava em condições de perguntá-lo por que não podia ver agora.
- Eu vou embora. Deixar você seguir sua vida. Se cuida. Manda noticias tá? E... não some, vem me visitar quando você quiser. Eu te amo! - Nessa hora ele me abraçou mais forte. - E sempre vou te amar! Tchau. - Me deu um beijo na testa e saiu, sem esperar resposta.
            Mariana estava no carro chorando e olhando-o sem acreditar. Eu fiquei parada olhando-o ir embora. Olhei-o até o carro desaparecer no caminho que levava à estrada. Adeus Lucas. Foi um prazer te conhecer. Obrigada por me amar.

            Quatro horas de viagem. Quatro horas ouvindo meu pai falando como o novo sítio era incrível. Ele disse que o sítio tinha o mesmo nome e placa de quando era uma chácara. Chácara Refúgio. Amei o nome do local. Ele disse que a casa era maior que a nossa. Disse que era lilás e branca, como minha casa de bonecas. Ele contou que a casa tem dois andares, e a escada de dentro é em espiral, como eu sempre quis. Do lado direito da casa, pelo lado de fora, tinha uma escada que levava até a varanda que servia de fachada para a casa e que também estendia-se pelo lado direito, onde ficava a escada. Tinha uma imensa porta de vidro nessa varanda que levava á uma linda sala de estar, onde ficaria nosso jogo de sofá vermelho. As paredes dessa sala eram brancas, e o chão era de madeira bem vermelha, que brilhava. O meu quarto ficava do lado oposto ás escadas, pois meu pai sabia que eu amava sacadas. Eu estava ficando encantada com a casa só de o meu pai dizer.
            Passamos pela cidade, a Capital, onde eu iria estudar. Passamos em frente ao meu futuro colégio. Era enorme! Ocupava uma quadra inteirinha.
- As aulas aqui começaram segunda-feira, então amanhã você começa. - Disse minha mãe.
            Ótimo. Entrar em um colégio novo, onde não conheço ninguém, em uma cidade milhares de vezes maior que a minha antiga cidadezinha, três dias depois de começarem as aulas, no segundo ano, onde todas os grupinhos já estão formados. Ótimo, acho que vou me enturmar rapidinho.
- Chegamos! - Disse meu pai.
            Passamos por um portão bem na beirada da rodovia, escrito "Chácara Refúgio".   Vi a casa de longe. Era linda. Mas o que me chamou mais a atenção quando chegamos foi uma placa simples de madeira, escrito em letras vermelhas “Bem Vindo a Refúgio!”. Eu realmente estava em casa. Uma nova casa, um novo refúgio. Um novo Refúgio.
            Enquanto colocavam os móveis e as caixas na casa, eu fui conhecer meu quarto. Era lindo. Enorme. Tinha um closet enorme também. Tinha um banheiro só pra mim, com um espelho enorme. Era super claro, com aquela imensa porta de vidro que ia pra sacada. Da sacada eu via um descampado, muito longe, muito longe mesmo. Meu novo refúgio. Pra chegar até lá teríamos que passar por um rio. Se eu fosse a pé eu iria demorar uma hora mais ou menos, mas com o Zeus, isso não seria problema.
            Sentei no chão da minha sacado e comecei a olhar o que tinha dentro da sacola que Lucas me deu.
            Tinha um copo descartável que segundo a etiqueta colada nele, eu havia usado na festinha de doze anos do Lucas. Um colar escrito Nathália que ele me convenceu a dar pra ele, dizendo que ia embora e queria ter uma lembrança minha, eu tinha doze anos e ele tinha quatorze. Tinha um caderninho cheio de poemas que ele fez para mim aos seus quinze anos, quando estava no ápice do desespero por mim, mas não tinha coragem de me contar seus sentimentos. O poema que mais me chamou atenção foi um chamado “Me desculpe Rainha”. Era assim:
Eu lhe ofereci o mundo. Disse que quando ele fosse teu, você seria a Rainha e eu o Rei. Te ofereci os céus, te ofereci as nuvens, te ofereci as estrelas. Mas para que você iria querer essas coisas? O mundo, bom, você ainda não o tinha, mas já era dona do meu mundo. Os céus? As nuvens? Você só precisa pedir que eu te levo. As estrelas? Para que? Se seu brilho ofuscaria todas elas?
Minha Rainha, nunca serei digno de seu amor, nem ao menos de sua amizade. Fiz coisas terríveis. Jurei minha fidelidade eterna, e beijei sua melhor amiga. Me perdoe minha Rainha, por tão estúpida ação.
Sei que não pensas em mim como penso em ti, sei que não dorme ouvindo o som de minha voz em sua cabeça. Sei que não treme ao me ver. Sei que não acontecem essas coisas que acontecem em mim, em você. Mas sei que eu posso te fazer feliz, se você quiser. E juro nunca mais beijar nenhuma outra garota, se deixar-me ser seu Rei. Depois do que fiz acho que não terei seu perdão. Mas continuarei te amando, até que os céus sumam, as nuvens se desfaçam, as estrelas se apaguem e o mundo deixe de existir. E quando esse dia chegar, eu ainda te amarei. Me desculpe Rainha, por não ser seu amado príncipe em cima de um cavalo branco. Sou apenas um plebeu que vive consumido por este amor platônico e moveria céus e mares se fosse necessário para ver seus olhos mais uma vez.

Tinha uma carta que dizia:

Nathália, passei a noite pensando no que eu disse. Me perdoe por não ter tido coragem de dizer isso antes, e me perdoe por ter desistido de você quando Bernardo apareceu, mas pensei não estar a altura dele. Um garoto que chama a atenção das garotas, rico, educado, da cidade grande. Eu o que sou? Apenas um caipira, sem terras, sem cultura, sem dinheiro. Hoje percebi que deveria ter insistido um pouco mais com meu coração, se eu tivesse te contado antes, talvez ele não tivesse ido atrás de você, eu podia te fazer feliz, eu sei que podia, e ainda posso se você quiser. Eu não te esqueci, e nunca vou esquecer, você foi o que aconteceu de mais especial na minha vida. Devo a maior parte dos meus sorrisos à você. Espero que não esteja chorando. Junto com esta carta devolvo-te o que sempre foi seu, e mando algo que espero que guardes, para lembrar-se de mim. Eu guardava dentro do travesseiro até meus quinze anos, quando minha mãe encontrou e ficou tirando sarro de mim. Háháhá. Bom, acho que já falei o que precisava. Espero que não se importe por eu ter feito uma cópia da foto e do caderno de poemas para guardar comigo. Se cuida, minha Rainha. Beijos. Eu te amo, desde sempre e para sempre."
            E encontrei a foto que ele havia me contado. Eu e ele na minha formatura de quarta série. Faltava um pedaço da foto. Faltava Mariana alí. Enquanto observava o braço de Mariana no meu ombro, a única parte dela que restou, eu ria com o corte tremulo na foto. Então meu riso se virou em um tímido sorriso, e as lembranças tomaram conta dos meus pensamentos. O garotinho que me carregou no colo quando eu caí da árvore, que não me deixou cair do cavalo, e que se desesperou quando não conseguiu impedir que eu caísse. O meu melhor amigo desde meus seis anos. Passei o dedo por cima dele na foto enquanto sorria com saudade. Talvez eu o amasse desde sempre também e não soubesse. Ou eu sabia mas não admitia porque Mariana o amava. Talvez aquilo que aconteceu hoje não tenho sido um adeus. É, eu sabia.







segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Capítulo 6


Q
uando cheguei no descampado, desci do meu cavalo e olhei em volta. Não tinha ninguém. Então gritei! Gritei até me faltar o ar! Gritei como se alguém tivesse enfiado uma faca no meu peito e estivesse girando-a! Gritei como se fosse a última coisa que eu fosse fazer na vida. Então comecei a chorar. Soluçava tanto que mal sobrava espaço para respirar. Me larguei no chão, sem forças nem para olhar se Zeus ainda estava alí ou se tinha fugido assustado com meus gritos. A única coisa que consegui fazer foi colocar as mãos em minha cabeça, segurar forte meus cabelos, como se fosse arrancá-los de mim, e continuar chorando e gritando. Quando os gritos diminuíram e só restavam as lágrimas, Zeus empurrou meu ombro de leve com o focinho.
- Ele é um idiota Zeus, ele não me ama. Ele mentiu pra mim. - Disse sem nem olhá-lo.
            Novamente, empurrou meu ombro de leve com o focinho.
- O que foi Zeus? Me deixa vai. - Disse chorando.
            Repetiu o gesto mais uma vez.
- O que é? - Perguntei me cansando daquilo já. Quando olhei-o ele correu para longe e voltou, chamando-me para galopar com ele. Talvez fosse uma boa ideia.
            Montei, corremos tão rápido que tive que fechar os olhos, pois o vento já estava machucando-os. Então, Zeus empinou num relinche de pânico e eu cai em um monte de feno, por sorte. O que ouvi depois foi um barulho do que parecia ser uma cobra cascavel, então entendi o desespero de meu amigo. Quando Zeus me viu caída, imóvel, pois estava sem forças para levantar, ele começou a correr e relinchar, e voltava para me ver, e corria novamente, como se estivesse tentando chamar alguém para me socorrer. Eu apenas conseguia chorar.
- Nathalia! Nathalia! Pelo amor de Deus, fala comigo! NATHY!! - Implorava Lucas tirando o cabelo bagunçado do meu rosto. Quando viu que eu estava chorando foi um alívio por eu não estar desmaiada, mas o pânico voltou a sua voz. - Nathy! Nathy! Você está bem? Esta doendo em algum lugar? Você está machucada? - Ele percebeu, então, que não era por causa da queda que eu estava chorando. - Por favor Nathizinha. - Disse ele com voz de quem está começando a chorar.
            Atirei meus braços em volta do pescoço dele, afundei meu rosto em seu ombro e continuei com aquela cena deprimente. Ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me apertou contra o seu corpo com força, como se ele fosse um escudo, e eu me senti protegida. Nenhum mal podia me atingir enquanto ele estivesse ali.
            Quando meu choro tinha acalmado-se novamente, ele afrouxou o abraço.
- Olha pra mim Nathalia. - Disse ele sério.
            Soltei meus braços de seu pescoço e deixei-os cair. Olhei para ele com medo de que ele me olhasse com ar de reprovação. Ele estava com os olhos inchados e vermelhos. Ele havia chorado comigo.
            Diferente do que pensei, ele não me olhou com ar de reprovação. Ele me olhou com compaixão. Tirou o cabelo do meu rosto, feno do meu ombro, sorriu e me abraçou de novo.
- Ouh menininha, não faz isso comigo não. Quase me matou de susto quando te ví caída no chão. Tá maluca é? - Me olhou nos olhos e disse: - Você não está tentando se matar está? - Sorriu.
            Eu rí e abracei-o de novo. Era tão bom abraçá-lo. Era tão aconchegante, tão.. seguro.
- Nove anos e eu ainda me lembro quando a Mariana chegou te puxando pelo pulso e disse “Lucas, essa é a minha melhor amiga. O nome dela é Nathalia, mas eu chamo ela de Nathy”. - Ele continuou com um braço na minha cintura enquanto sentava ao meu lado, eu encostei minha cabeça no ombro dele. Algumas lágrimas ainda insistiam em sair, mesmo eu não querendo-as. - Eu pensei: “Nossa! Como uma menina de seis anos consegue ser tão linda? Ela é radiante!”. Eu tinha acabado de descobrir o significado da palavra “radiante”, e achei o momento perfeito para usá-la. Quando você caiu da árvore, aquele dia que a gente fugiu pra comer goiaba, eu nem sabia que você tinha torcido o pé, fui saber só quando chegamos na casa da Mari e você tentou andar. Lembro também de um dia que a Mari ficou brava comigo porque eu não quis namorar com ela, ela ficou uma fera. Depois eu pedi desculpas, mas ela se fez de difícil, então falei que se ela me desculpasse, eu lhe contaria um segredo. Ela desculpou, então eu cheguei no ouvido dela e disse: “a Nathalia é a menina mais linda que eu já ví na vida, acho que eu amo ela”. Ela ficou uns três meses sem falar comigo. Isso eu tinha uns dez anos e vocês oito. Quando vocês duas tinham dez anos, eu já sabia muito bem o que eu sentia por você. Eu ficava nervoso quando você chegava, eu não tirava os olhos de você, e sempre que podia dava um jeito de esbarrar minha mão na sua. Você foi na casa da Mari se arrumar para a formatura da quarta série de vocês, e eu estava na sala esperando. Quando você apareceu, com aquele vestidinho rosa, nossa! Eu sonhei com aquela imagem umas três noites seguidas. Eu peguei uma foto que sua mãe me deu de você, Mari e eu na formatura, cortei a Mari, e coloquei, eu e você, dentro do meu travesseiro. - Riu mais uma vez. - A Mari vivia comprando roupas iguais as tuas e falando pra mim “viu? Essa blusa é igual a da Nathy, é bonita?”. Minha vontade era falar “é linda! Quando está nela!”, mas ela ficaria brava comigo de novo, então só falava “É”. Até meus quinze anos eu nem olhava pra Mariana, como mulher. Ela era aquela pirralhinha que eu conheci quando ela tinha dois anos, mas, eu não tinha coragem de te falar nada, e você não me dava bola. Eu não te esqueci, mas quando ouvi ela falando pro Bernardo que ele devia te conquistar e ele gostando da ideia, eu desisti de esperar você me notar, e como a uns dois anos atrás, durante uma brincadeira, eu roubei um beijo da Mariana, eu resolvi tentar ficar com ela. Também porque eu sabia que ela ia me fazer sair com vocês, e eu não ia aguentar te ver com ele, e estando com ela, eu tinha uma desculpa pra sair de perto. - Ele ficou um tempo em silêncio, e vendo que eu não falava nada ele tentou amenizar a situação. - Daí eu ví que a Mariana era uma pessoa legal, e que gostava muito de mim, e já que eu não podia ter quem eu amava, eu merecia alguém que me amasse. Eu não sabia que o Bernardo tinha uma namorada, achei muita covardia e...
- Não vamos falar nele tá? - Interrompi, como se só tivesse ouvido essa parte.
- Tudo bem.
            O silêncio reinou até que eu tive coragem de quebrá-lo.
- Por que você me contou tudo isso? Por que, agora? - Perguntei confusa.
- Eu não sei, estava entalado, eu precisava contar. Desculpa. - Disse ele olhando para os próprios pés, com ar de submissão, como eu nunca havia visto nos nove anos que a gente se conhece.
- Não me pede desculpas, você não fez nada errado. Bom, me desculpa você, não foi nesse sentido que eu quis dizer, eu só não entendo por que demorou tanto tempo.
- Eu também não sei. Mas, não importa não é mesmo? Eu estou com a Mariana agora. - Disse como se fosse obrigação dele estar com ela.
            Senti uma gota de água pingando em meu braço.
- Está começando a chover, acho melhor você ir se proteger em casa.
- E você, se não for logo não vai mais, seu carro vai atolar.
- O carro do meu pai atolar? Aquilo é pior que trator! - Rimos. - E se atolasse, eu teria uma desculpa para ficar por aqui e cuidar para você não sair caindo de cavalos por ai. - Rimos.

            Fui direto para meu quarto quando cheguei em casa. Tomei um banho bem demorado, coloquei meu pijama e quando deitei, ví uma flor que o Bernardo havia me dado à uns dois dias atrás e que eu coloquei num copo com água ao lado da minha cama.
            Sim, comecei a chorar novamente. Peguei aquele copo com água, flor e tudo e lancei na parede ao lado da porta. Nesse mesmo instante minha mãe abriu a porta.
- Nathália, a gente precisa conversar. - Ela disse séria.
- Amanhã eu limpo mãe. - Respondi virando de costas pra ela na cama.
- Não é sobre o copo. Nem sobre Bernardo.
- Não dá pra deixar pra amanhã? - Perguntei com sono.
- Não! Porque amanhã você vai ter que levantar arrumando o quarto, pois nós vamos nos mudar para um sítio menor do que esse, na capital.
- Sério? Nós vamos embora daqui? - Disse sentando na cama.
            Isso era ótimo! Uma nova vida. Sem Bernardo, sem Mariana, sem Lucas, sem namorado de ex melhor amiga se declarando, sem lembranças. Um novo começo. Ótimo! Ótimo mesmo! Finalmente algo bom nesse dia horrível.
- Agora dorme, que amanhã o dia vai ser longo.
- Boa noite mãe. 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Capítulo 5


S
emana perfeita, férias perfeitas, com a pessoa perfeita, até o oitavo dia.
Estávamos na rede, na varanda da chácara da Mari. Ela estava com o Lucas na sala, e todas as outras pessoas estavam na cidade.
            Bernardo começou a me beijar um pouco mais intensamente que o normal, e sua mão começou a escorregar da minha cintura.
- Beh, eu não gosto disso, você sabe. – Eu disse, não querendo quebrar o clima, mas, ele era o meu primeiro namorado, estava indo rápido de mais.
- E eu não gosto da sua frescura, qual o problema Nathy? É bom você não acha? – E apertou minha coxa com a mão.
- Ei! Você nunca fez isso, qual o seu problema hoje? – Perguntei inquieta.
- Olha, eu vou embora em dois dias, você que sabe se quer aproveitar ou não. – Disse ele tirando as mãos de mim.
- Mas, a gente não precisa ter pressa, afinal, vamos continuar nos vendo não vamos?
- A Alice não vai gostar disso se souber mas...
- Quem é Alice? – Perguntei tentando esquecer o que havia passado pela minha cabeça.
- É minha namorada. – Disse ele olhando para longe.
- Como assim? Eu pensei que Eu fosse sua namorada. – Eu disse com os olhos começando a encher de lágrimas.
- Namorada? A, dá um tempo né. Algum momento eu te pedi em namoro?
- Mas.. Beh, eu pensei que..
- Pensou errado. – Disse ele arrogante.
- O que eu sou então? Um passa tempo? Uma substituta já que sua namorada não está aqui? – Já estava sentada na rede, incrédula.
- Exatamente. Eu namoro com ela a três anos. Você não devia reclamar, você devia me agradecer.
- Te agradecer pelo que? Por me enganar? Você disse que me amava. Você disse “Eu te amo”. Eu acreditei nisso Bernardo.
- Ah me poupe né! Você realmente acreditou nisso? Você é apenas uma caipira ridícula. Olha as roupas que você usa, as músicas que você ouve, você mora no meio do mato, você conversa com um cavalo! Antes do Bernardo aqui aparecer você não sabia nem o que era um carinho de um homem. Era uma criança, não que tenha deixado de ser, mas, agora você sabe o que é um beijo pelo menos, aprendeu que não é aquela coisa esquisita que você fazia no começo. Agora você realmente quer que eu me sinta mal por dizer que te amava? Você ficou feliz não ficou? Ótimo! Agora não vem pegar no meu pé não ta! Agradeça a Mari por me pedir pra fazer isso por você, ela tinha dó de ver você sempre sozinha. Nenhum garoto olhava pra você, ela cansou de te ver chupando dedo.
- Por que você está falando tudo isso Beh? – Eu disse chorando.
- A garota se toca! Que Beh o que! Meu nome é Bernardo ok? Eu to cansado das suas criancices. Cresce menina! Agora me dá um último beijo. De despedida né. – Disse ele cínico segurando em meu queixo e vindo me beijar.
            Eu cuspi no rosto dele e saí da rede em direção da sala.
- Idiota! Eu te ODEIO! – Gritei, enquanto ele ficou ali, rindo, estupidamente.

- Dó? É isso que você tinha de mim é? Ninguém olhava pra mim? Eu ficava só chupando dedo? Ótima amiga você! Obrigada por acabar com a nossa amizade. Parabéns Mariana! – Eu disse enquanto passava pela sala e ia embora.
- Nathy, o que aconteceu? – Disse Mariana pulando do colo de Lucas no sofá.
- Falsa! Eu tenho nojo de você! Ele namora, ele não está nem ai pra mim. Ele vai embora e nunca mais vai lembrar que eu existo! – Eu disse chorando, esperando que ela me consolasse e salvasse nossa amizade.
- Você esperava o que? Casar com ele? Já estava na hora de você ter alguma experiência com algum homem. Você tem quinze anos e nunca tinha nem pego na mão de um garoto. – Disse com o ar mais nojento que já vi.
- Eu deveria decidir! Ah, esquece! – Sai da sala.
- Ei, onde você vai? Espera meu pai chegar que ele te leva então! – Disse ela.
- Como se você se importasse. – Respondi sem olhar para trás.
- Quer ligar pro seu pai? – Perguntou. – Nathy! Desculpa, eu só queria te ajudar.
            Deixei ela falando sozinha.
- Deixa ela, daqui a pouco ela volta chorando, só está fazendo doce, querendo chamar a atenção. – Ouvi Bernardo falando para ela.
            Comecei a correr. Estava super longe da estrada, e não conseguiria chegar em casa a pé, mas eu não iria voltar, preferia morrer. E pra ajudar, tinha deixado meu celular em casa.
            Depois de uns dez minutos andando, sentei no meio do caminho e comecei a chorar mais do que antes. Então, ouvi o barulho de um carro se aproximando pelas minhas costas. Levantei e comecei a caminhar novamente, certa de que não iria nem ao menos olhar para o carro.
- Nathália, entra aqui, eu te levo pra casa. – Disse Lucas.
            Eu não esperava ele ali, e muito menos sozinho. Ele estava com o carro do pai dele.
- Não, obrigada. Eu vou a pé. – Disse séria sem olhar pra ele.
-Você sabe que não vai chegar em casa a pé, entra aqui, eu não falar sobre nada que aconteceu, não vou defender a Mari nem ninguém, na verdade a gente não precisa nem conversar. Vem Nathy, deixa eu te levar.
            Entrei séria no carro.
            Quando já estávamos na estrada, não aguentei mais o silêncio.
- Obrigada. Você não precisava fazer isso. – Disse agradecida, ainda chorando um pouco.
- De nada. Eu não iria ficar em paz comigo se tivesse te deixado. O Bernardo tentou me impedir, falando que você ia voltar, mas, te conheço a tempo suficiente pra ter certeza que não iria e nem queria que voltasse, eu não podia permitir que você se humilhasse desse jeito. – Disse isso e deu leves tapinhas no meu ombro.
- Obrigada, mesmo. - Repeti enquanto colocava minha mão em sinal de agradecimento sobre a dele no meu ombro.
            Ele suspirou e olhou de canto de olho para minha mão sobre a dele. Então percebi que aquele gesto tinha significado algo mais a ele do que a mim, então tirei minha mão meio constrangida. Ele olhou fixo na estrada.
- Você é menor de idade, não devia estar dirigindo. - Eu disse sorrindo para acabar com aquele clima constrangedor.
- É, meu pai diz a mesma coisa, por isso que ele nunca me deixa sair com o carro dele, mas como eu disse que era caso de vida ou morte, ele abriu uma exceção. - Sorriu.
            Então eu me lembrei mais uma vez da cena e meus olhos encheram de lágrimas novamente.
-Ah não Nathy! Eu não sei lidar com uma mulher chorando, ainda mais você, que a única vez que te vi chorar foi logo que nos conhecemos, quando eu, você e a Mari fugimos da casa dela pra comer goiaba, sua mãe tinha falado pra você não ir, lembra? - Rimos. - Nós fomos e você caiu da árvore, torceu o pé e cortou o braço. Você não conseguia andar, eu te levei no colo. Estava me achando, oito anos sendo o herói de uma garotinha indefesa. Era isso que eu pensava. E quando chegamos lá, morrendo de medo de levar bronca, seu pai colocou seu pé no lugar e disse que você não ia mais ganhar o Zeus. Você entrou em desespero.
- É, eu lembro disso. Tenho a cicatriz no braço até hoje. - Mostrei a pequena cicatriz no cotovelo. - Eu não sei porque fui.
- Você odiava goiaba.
- Ainda odeio, aliás, depois daquilo mais ainda. Você já me salvou algumas vezes não é senhor Lucas? - Rimos de novo.
- Como a vez que você escorregou na pedra no rio, quando a correnteza estava forte por causa da chuva, e você se apavorou e não conseguiu nadar, e eu pulei e te trouxe pra beira do rio.
- Nossa! Eu não entrei naquele rio por dois anos lembra? Eu ficava sentada naquela raiz de árvore olhando vocês dois no rio, e pra não me deixar fora da brincadeira, vocês apostavam corrida na água e eu era a juíza. - Dessa vez só ele riu. Falando em apostar corrida na água, meus olhos encheram novamente.
- Ah não né. Ok, outra vez que eu te salvei. Aquela vez que você foi montar pela primeira vez no meu cavalo, o Maltos, lembra dele? Ele se assustou com uma cobra e quase te derrubou. Eu te peguei quando você estava quase no chão.
- Eu nunca mais montei nele. - Rimos. - Oh! Lucas, meu herói! - Fiz vozinha de filme e ri, mas ele ficou sério.
- Sonhei tantas vezes com você dizendo isso. - Cochichou pra ele mesmo.
- O que você disse Lucas? - Eu não tinha certeza do que tinha ouvido.
- Nada não, bom você está em casa. E vê se não chora por causa daquele babaca tá? - E me deu beijo na testa. Me desesperei quando ele me lembrou sobre aquele outro lá (me recuso a repetir o nome dele).
- Tchau, obrigada mais uma vez. - Disse entre soluços e sai correndo do carro. Dei a volta na casa, encontrei Zeus, montei nele na hora e saí galopando.