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Então vá até o capítulo 1 para acompanhar toda a história de Nathália em Bem Vindo a Refúgio!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Capítulo 11


D
epois de uma semana tão movimentada, sábado chegou terrivelmente entediante. Acordei às onze horas da manhã com o corpo doendo de tanto dormir. Peguei meu computador e fui pra sacada. Só tinha a Mariana conectada. Grande msn! Antes que eu desligasse o computador e me deitasse pra assistir televisão, minha mãe bateu na porta me chamando para o almoço. Depois do almoço, eu deixei o computador ligado com o msn aberto no criado-mudo e deitei pra assistir televisão. Quando pensei em ir para o descampado fugir do tédio adivinha? Não, o Lucas não entrou no msn. Chuva. Sim, começou a chover. Agora meu tédio seria supremo. Já passava das quatro horas da tarde, então, meu celular tocou. Numero desconhecido.
- Alô. - Disse.
“É a Nathalia?” - Disse uma voz feminina não identificada.
- Sim, quem está falando? - Perguntei. O fato de ser uma garota falando comigo era quase totalmente tranquilizador.
“É a Angélica. Tudo bem amiga?” - Respondeu.
- Tudo sim, como conseguiu meu número? - Perguntei.
“Liguei pro Tio Lourenço, o motorista do ônibus, disse que era por causa de um trabalho do colégio.” - Disse sapeca.
- Ah, sim. Mas diga, a que devo a honra da sua ligação? - Rimos.
“Você não pode vir dormir aqui em casa hoje? Sei que a gente se conheceu ontem mas, eu queria que você e a Fabí viessem pra gente se conhecer melhor.”
- Acho que posso sim.
“Ótimo! Vou ligar pra Fabí, você me liga confirmando dai?”
- Claro.
“Ok, quer que a gente te busque?”
- Não precisa não, minha mãe vai querer me levar. Daí, se ela deixar eu ir, eu pego o endereço na hora que te ligar.
“Tudo bem. Até mais então.”
- Até.
            Sim, minha mãe deixou. Fui pro quarto, liguei pra Angélica, ela ficou super empolgada de eu poder ir, a Fabí também ia, mas só ia poder chegar depois das sete, porque tinha ido almoçar na casa de uma tia com a mãe e iam demorar pra ir pra casa.          Arrumar as malas. Que exagero. Peguei minha mochila de viagem, coloquei um pijama, um shorts jeans curto o suficiente pra só usar em casa, e uma regata amarela pro outro dia. A gente não ia sair, ia? Toalha limpa, roupa de baixo e o meu diário, claro. Eu não ia deixar em casa, era perigoso de mais. Troquei de roupa, coloquei um shorts branco, uma batinha roxa e uma rasteirinha, a qual eu ia usar no outro dia. Fiz uma trança no cabelo, como de costume, e estava pronta.
            Angélica morava em um prédio de cinco andares, em um condomínio. Não era nada luxuoso, um condomínio simples, mas bem aconchegante, e que tinha quatro prédios iguais ao que ela morava. Seu apartamento era no terceiro andar. Não tinha elevador, ainda bem que levei só uma mochila.
            Assim que cheguei, liguei pra ela. Ela foi me encontrar no portão. Minha mãe não fez questão de ir até o apartamento. A Angélica pediu pra eu ir embora só de noite, igual a Fabí, e minha mãe deixou.
            Uma coisa que me intrigou bastante foi que todos da família da Angélica são loiros de olhos azuis, e ela, apesar da pele ser bem clara, tem cabelos pretos e olhos castanhos.
            Assim que chegamos no apartamento, ela me apresentou pra mãe dela e fomos para o quarto. Eram quase seis horas da tarde.
- Então, por que você não voltou de ônibus ontem? - Perguntou Angélica curiosa.
- Bom, fui almoçar com minha mãe e depois tive que ir à psicóloga. Que saco né? - Disse.
- Ah, sei lá, nunca fui. - Rimos. - Mas acho que seria bom pra mim. - Ela disse triste. - Mas então, porque seus pais resolveram que você deveria ir lá?
- Como disse minha mãe, “eles cansaram de me ver chorando por causa do Bernardo” e acham que eu preciso de ajuda com minha autoestima. - Disse arrogante.
- Quem é Bernardo? - Disse Angélica com medo de perguntar.
            Contei toda a história pra ela sem chorar nenhuma vez. Claro, toda vez que eu estava prestes a desabar ela fazia uma piadinha e nós caímos na gargalhada.
- Caraca que raiva desse garoto. É um mané! - Rimos. - Tipo um garoto aqui do condomínio. A gente começou a ficar e duas semanas depois ele me pediu em namoro. Eu contei pra toda minha família e ficaram super felizes. Três dias depois que começamos a namorar ele tentou me levar pra cama, e como eu não quis, ele terminou comigo. - Disse ela pra baixo. - Meu primeiro beijo foi com ele. Meu primeiro namorado, primeiro amor, e ele estragou tudo. Por quê? Porque é um mané! Igual o Bernardo! - Rimos de novo.
            Eram sete horas quando ela me chamou pra ir ao campo de futebol que tinha atrás do estacionamento.
            Todo sábado, os jovens do condomínio se encontravam lá pra conversar, namorar, paquerar e fazer musica. Dois garotos levavam violão, um levava um bongô, outro pandeiro entre outros instrumentos. A Angélica ia sempre, mas ficava só na roda dos músicos. Nunca teve amizades com garotas ali no condomínio, e as que tinha, só iam lá por causa dos garotos. Os cinco músicos mais importantes, aqueles que não perdiam um encontro, que eram super amigos e os mais bonitos eram o Marcos, que tocava violão, dezesseis anos, com namorada e estudava em um colégio estadual ali perto. Ele estava no segundo ano como nós. Jorge, outro violão, cantava, era solteiro, um e setenta de altura, moreno de olho verde, lindo, dezoito anos, faz cursinho pré-vestibular no período da noite onde nós estudamos. Angélica tinha uma quedinha por ele. Tinha o Guilherme, no bongô. Ele tem dezessete, aquela idade que me assusta. Ele esta no último ano do ensino médio no mesmo colégio que a gente. Cabelo comprido, castanho bem claro, olhos castanhos mel. Solteiro. Com aquele sorriso retinho e branco que encantava e convidada. Sorriso contagiante.
            Já eram nove horas da noite quando a Fabí chegou. Ela ligou no celular da Angélica e fomos encontrar ela no portão. Eu não queria deixar o campo.
- O Guilherme te olhou o tempo todo. - Disse Angélica quando estávamos levando a Fabí para o campo.
- Sei. Quem me dera. - Rimos.
- Vocês vão me mostrar quem é né? - Disse Fabí.
- Claro! Ele é lindo! - Disse Angélica entusiasmada.
            Quando chegamos ao campo, a “banda” não estava mais formada. Marcos estava se agarrando com a namorada no canto do campo, Jorge conversando com uma garota loira do gol, e os outros jogando vôlei do outro lado do campo com o resto das pessoas. E Guilherme? No mesmo lugar de antes, com um violão, sozinho, cantando baixo.
- Aquele sozinho é o Guilherme. - Disse Angélica pra Fabí.
- Ele é lindo mesmo. Nathy sortuda! - Rimos, e eu corei.
- Ai gostei, vou te chamar só de Nathy agora. Pode? - Pediu Angélica.
- Claro! Sempre me chamaram assim.
- Eu também vou.
            O campo era cercado por redes para não ter perigo de uma bola acertar um dos carros. Estávamos na entrada do campo. Eu não conseguia parar de olhar pra ele. Até a hora que ele olhou e seus olhos cor de mel encontraram os meus. Parei de respirar, mas não consegui desviar o olhar. Ele abriu aquele enorme e lindo sorriso e fez sinal pra que nós fossemos lá.
- O Guilherme tá chamado a gente pra ir lá. - Falei voltando a respirar.
            Elas olharam e ele deu tchauzinho e chamou de novo.
- Vamos. - Disse Angélica decidida e começou a andar. Fabí a seguiu mas eu fiquei estática por alguns milésimos, até que elas perceberam e me puxaram.
- Te abandonaram então? - Disse Angélica toda simpática.
- É, chega uma certa hora eu fico sozinho com um violão que não presta pra nada nas minhas mãos que não sabem tocar. - Disse ele sorrindo.
            Ela e Fabí sentaram. Uma de cada lado meu. Quando percebi que só eu estava de pé, sentei imediatamente, bem de frente pra ele.
- Posso? - Perguntou Angélica apontando para o violão.
- Claro! - Respondeu Guilherme. - Não sabia que você tocava Angélica.
            Ela o olhou assustada.
- E eu não sabia que você sabia meu nome. - Disse sorrindo.
- Você mora aqui a quinze anos e estuda no mesmo colégio que eu, como não saberia? Eu não sei o nome de suas amigas, isso sim. - Ele disse sorrindo pra mim.
- Ah, essa é a Nathalia, Nathy, e essa é a Fabiana, Fabí.
- Oi Nathy e Fabí. - Ele disse com aquele sorriso.
- Oi. - Respondi tímida.
- Oi. - Disse Fabí com um enorme sorriso de quem está fazendo alguma brincadeira.
            Angélica começou a tocar e cantar. Ela tem uma linda voz. Era uma música lenta que eu não conhecia, mas Guilherme sim, ele acompanhou ela no refrão. Depois Fabí pegou o violão e começou a tocar “Malandragem” da Rita Lee. Essa todos nós cantamos. O violão ficou passando de uma para a outra, tocando mpb por um bom tempo. O campo estava vazio daquele lado, e do outro, só restaram metade dos que antes estavam jogando volei.
- Acho que a gente devia subir antes que minha mãe ligue atrás da gente. - Disse Angélica passando o violão pra Guilherme.
            Começamos a levantar, todos do vôlei olharam, e era óbvio que era por causa da Fabí. Cabelo pra baixo da cintura, preto com as pontas vermelhas, shorts jeans, meia calça preta toda rasgada, all star todo preto, regata vermelha com uma camisa social preta aberta e com as mangas dobradas até os cotovelos por cima. Guilherme levantou junto com a gente.
- Vocês tem msn? Eu gostei de vocês, seria legal continuar em contato. - Disse ele.
            Hora de começar a movimentar meu msn a tanto tempo abandonado. Depois disso demos tchau pra ele e começamos a andar. Algo segurou minha blusa por trás de leve, tão leve que eu poderia continuar andando que ia soltar e eu fingiria que nem senti. Mas eu resolvi parar. Ele estava com um enorme sorriso. Não sei como mas minha timidez desapareceu e eu abri um sorriso tão enorme quanto o dele de volta. Ele mordeu a boca e veio na minha direção. Chegou à minha frente e ficou me olhando nos olhos e sorrindo, sem dizer nada.
- Tudo bem ai? - Perguntei brincalhona, sem desviar o olhar.
- Você é linda. - Ele cochichou pra mim.
- O quê? - Perguntei confusa. Ele tinha mesmo dito aquilo? Por quê?
- Você é LINDA! - Ele repetiu e veio tentando me dar um beijo.
            Lembrei-me do Bernardo, e rapidamente liguei Bernardo a cidade grande, cidade grande a Guilherme, Bernardo a Guilherme, Bernardo a decepção. Então abaixei a cabeça apenas, e ele entendeu o recado e me deu um beijo na testa.
- Você não é como as outras garotas. - Disse.
            Eu não respondi nem ergui a cabeça. Ele veio e me abraçou por cima de meus ombros.
- Você ainda vai querer manter contato? - Perguntou.
- Por que não? - Perguntei indo para trás para olhá-lo.
- Ótimo. - Ele sorriu pra mim. Não era o mesmo sorriso, era um sorriso esnobe, metido, e simpático ao mesmo tempo.
- Vamos Nathy! - Gritou Fabí da entrada do campo e colocou a mão na boca como quem diz “ops, foi mal”, e as duas riram.
- Tchau Guilherme. - Eu disse e fiz sinal com a mão, me virei e comecei a andar.
            Quando cheguei onde as meninas estavam, olhei para trás e ele ainda estava olhando. Fiz sinal de tchau com a mão de novo. Ele levantou a mão, deu tchau, e foi onde os outros garotos estavam.

            Na frente do condomínio tinha uma pizzaria, fomos lá, compramos uma pizza de frango com catupiry e duas garrafas de coca e fomos pra casa de Angélica. Os pais dela estavam na sala assistindo televisão, e a irmã dela tinha ido dormir na casa de uma amiga. Pegamos copos e fomos para o quarto. Sentamos no chão do quarto e começamos a atacar a pizza.
- Me explica uma coisa Nathy. Como você dá um fora no Guilherme? - Perguntou Angélica.
- É verdade! O garoto é lindo de mais! Que sorriso é aquele? - Disse Fabí.
Corei. - Acho que estou traumatizada com garotos de cidade grande, ainda mais com dezessete anos. - Disse conformada olhando para a pizza.
- Seus pais tem razão de te mandar para a psicóloga. - Disse Angélica e mordeu um pedaço de pizza.
            Fabí olhou com cara de quem não estava entendendo nada.
- Que parte da história eu perdi? - Perguntou.
- Um mané chamado Bernardo! - Disse Angélica e contou toda a história.
            Fabí achou um desaforo o que o Bernardo fez comigo. Passamos a noite falando sobre desamores, decepções e, bom, garotos. Garotos do colégio também. Elas disseram que o irmão do Wesley é lindo. Bom, o Wesley é, o irmão deve ser também.
            Quando já estávamos deitadas, as três em dois colchões de solteiro no chão do quarto, começamos a falar sobre família. Fabí perguntou se eu tinha irmãos, eu disse que não, ela também não tem. A Angélica tem uma irmã que vai fazer quinze anos em duas semanas.
- Você e sua irmã tem a mesma idade por um tempo? - Perguntou Fabí.
- Bom, na verdade ela é minha prima, assim como os que estavam na sala são meus tios, não meus pais. Minha mãe morreu durante o parto, e o meu pai, quando soube que minha mãe estava grávida, sumiu. - Disse com tanta tranquilidade como se estivesse falando o que comeu no almoço, nada importante.
- Nossa, sinto muito. Eu perdi meu pai faz cinco anos. Morreu num tiroteio, graças ao trabalho abençoado dele. - Disse Fabí irônica.
- Policial? Ou traficante? - Pediu Angélica querendo desfazer o ar pesado como sempre.
- Policial, assim como minha mãe, eles se conheceram no trabalho.
- Meus pais se conheceram na feira, minha mãe estava vendendo alface com minha avó. - Eu disse e todas nós rimos.
- Eu estou com sono, são quatro horas da manhã. - Disse Fabí.
- Boa noite, bom dia sei lá. - Eu disse.
- Boa noite Nathy! - Responderam em coro. 




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Capítulo 10


- Eu não ia voltar de ônibus? - Perguntei para minha mãe que estava me esperando na frente do colégio de novo.
- Vamos almoçar, temos algumas coisas pra resolver e depois você tem compromisso.
- O que eu tenho? - Perguntei confusa. Será que eu esqueci algo?
- Entra no carro. No restaurante eu te conto.
            Fomos até o restaurante em que almoçamos no dia anterior. O caminho foi silencioso.
- Nós compramos um computador pra você, sei que demorou três anos, mas você sabe que demorou pra nos recuperarmos daquele incêndio na lavoura.
- Nossa, obrigada, mesmo! Eu sei e não cobrei vocês por isso. Obrigada mesmo.
- Mais uma coisa, eu e seu pai conversamos e... não aguentamos mais ver você chorando toda vez que algo te faz lembrar o Bernardo. Você vai encontrar uma psicóloga toda sexta feira a partir de hoje até que tenhamos certeza que você está curada daquele canalha. E também, ela vai poder te ajudar com sua falta de autoestima que já não era boa e só piorou depois do Bernardo.
- E...eu não vou na psicóloga, não estou com depressão ok? Vai passar, poxa, fazem quatro dias.
- E já demorou.
- Não! - Falei alto.
- Fala baixo, estamos em um restaurante não no seu quarto. Você vai.
- E se eu não for? - Desafiei, mesmo sabendo que não devia fazer aquilo.
            Ela me olhou com um sorrisinho maléfico.
- Eu não acredito! Vocês compraram o computador pra me chantagear. Mãe!
- Olha, é rápida minha filha. Você quer o computador? Então almoça rápido que marcamos pra uma e meia e já é uma hora.
            Eu não estava acreditando que isso estava realmente acontecendo. Eu não quero ir à psicóloga, não mesmo!
            Fiquei quieta o resto do almoço, ou seja, os próximos quinze minutos.
- Onde é? - Perguntei. Sinceramente, não queria que ela me levasse.
            Ela apontou para um edifício a duas quadras dali.
- Que andar? Sala?
- Você está querendo ir sozinha? - Perguntou minha mãe.
- É. - Disse olhando para baixo.
- Olha, nós não estamos fazendo isso pra que você fique brava com a gente. Só queremos te ajudar. Isso está te fazendo mal, você não precisa passar por isso sozinha, e se você não quer falar comigo sobre isso, o que eu acho normal, pois eu também não falava sobre isso com minha mãe quando acontecia então, a psicóloga vai poder te ajudar. Confia em mim. E eu e seu pai já tínhamos conversado sobre isso por causa da sua autoestima. - Disse segurando minha mão que estava sobre a mesa, e tentando me olhar nos olhos enquanto eu olhava para a mesa.
- Tá. - Falei me rendendo, já que não tinha como escapar.

            O escritório era no décimo segundo andar, na sala 237. Era um prédio comercial. Um dos mais importantes da cidade. Era o edifício Sbyrka.
- Oi Nathália, meu nome é Regina, espero que sejamos amigas.
- Oi Regina. - Sorri para a psicóloga.
- Eu vou te esperar aqui fora tá Nathy? - Disse minha mãe.
- Ok. - Respondi.
            Eu não estava nada confortável ali.
            Me sentei um sofá que parecia mais uma almofada gigante, Regina se sentou na minha frente, em outro sofá daquele.
- Bom, sua mãe me falou o porque que eles resolveram que você precisava da minha ajuda, mas, não é sobre isso que vamos conversar. Não enquanto você não decidir que é hora.
            Eu estava começando a gostar dela. Regina pediu pra que eu descrevesse minha rotina, pediu pra falar sobre o que eu gostava de fazer, e achou muito legal quando falei sobre o descampado. Perguntou sobre meus traumas, sobre minhas amizades... Quando pediu sobre os meus amigos, não falei nada sobre Mariana, afinal, ela era minha amiga, não é mais. Mas sim, falei sobre Lucas, ele é meu melhor amigo de infância, e não fez nada pra que isso mudasse. Falei sobre o Wesley, que a gente conversava nas aulas e que ele parecia ser muito legal, falei sobre a Angélica e sobre a Fabí, que eu conheci hoje. Ela perguntou sobre minha relação com minha mãe e meu pai. Enfim, ela não me perguntou nada sobre Bernardo, e nem ia, não tão cedo. Ela dava espaços para falar sobre ele se eu quisesse, e algumas vezes eu pensei em falar, afinal, era por culpa dele que eu estava ali, mas quando fosse a hora certa eu teria certeza e falaria, ainda não estava confortável o suficiente para isso.
- Bom, sobre aquele assunto que eu não vou te perguntar, sua mãe disse que às vezes você fica irritada, se tranca no quarto, grita, chora, disse que até já jogou um copo na parede. Então vamos fazer assim, você vai pegar um caderno velho, ou comprar, você que sabe, e quando você estiver com raiva você vai escrever tudo que você tem vontade de falar, tudo tudo tudo, quando você estiver triste você vai desabafar ali e quando algo te deixar muito feliz você também vai escrever. Procure colocar a data e o local de onde você está escrevendo tudo bem?
            Ela estava me pedindo pra escrever um diário? Era só o que faltava. Primeiro, eu vou à psicóloga, depois, eu escrevo um diário. Oi, eu sou uma garota rebelde, complicada e fresca de um filme americano.
- Um diário? - Perguntei.
- Se você quiser que seja. Mas não precisa falar sobre tudo que aconteceu no seu dia, sobre as aulas, sobre a coceira no pé. - Rimos - Só que seria interessante se você escrevesse um pouquinho todo dia, nem que sejam duas linhas, escreve o que mais te chamou atenção, algo assim.
- Mas eu sou péssima pra escrever. No último bimestre tirei quarenta em redação, passei por concelho nessa matéria.
            Ela riu.
- Não tem problema Nathália. Só você vai ler. Não vai precisar me mostrar não, mas eu vou perceber se você não estiver fazendo. - Ela me olhou como quem está te ameaçando, mas de uma forma brincalhona.
- Mas se eu posso desabafar com um caderno, por que não posso desabafar com... um cavalo? O Zeus? - Perguntei com ar brincalhão também.
- Vamos fazer um teste essa semana com o caderno? Só pra você ver como se sente. Se não der certo, a gente deixa o caderno pra lá e volta ao cavalo, ok? - Disse docemente.
- Ok, eu faço um diário. - Nós duas rimos.
- Bom, nossa reunião acabou, até semana que vem Nathália, gostei muito de conversar com você.
- Até semana que vem. Obrigada, eu também gostei. Foi melhor do que eu imaginei.
            Ela riu.
- Sempre é.

            Chegamos em casa e eu fui direto pro meu quarto procurar uma coisa.
            No fundo de uma gaveta que não havia sido desfeita para a mudança, encontrei um embrulho vermelho com estrelinhas prateadas. O embrulho estava velho. De dentro desse embrulho, tirei um caderno. Nenhuma folha havia sido usada, ele estava novo. O caderno era encapado com um tecido preto, e tinha um cordão bem comprido, vermelho bem escuro, quase preto, que dava umas sete voltas no caderno. Eu ganhei aquilo no meu aniversário de dez anos, mas nunca tive vontade de usar. Nunca me interessei por diários.
            Peguei aquele caderno, uma caneta preta, meu celular e meu fone novo, coloquei em uma mochila velha e desci as escadas para ir ao descampado.
- Onde você está indo com essa mochila mocinha? - Perguntou meu pai.
            Não, eu não vou fugir para não precisar ir à psicóloga, pai, ela é legal, e o senhor ainda me deve o computador. Como eu queria ter coragem de dizer isso.
- Vou correr com Zeus, como faço todas as tardes. - Respondi.
- E para que a mochila? - Perguntou minha mãe.
- Coisas que a psicóloga me mandou fazer. - Se eles soubessem que tenho um diário era capaz de quererem ler para ver o que falo do Bernardo.
- Ah! Ela te mandou galopar com uma mochila nas costas. O que tem aí? Deixa eu ver. - Disse minha mãe e veio pro meu lado querendo pegar a mochila.
- Relaxa! Caramba! Eu não vou fugir de casa! É só um maldito diário que ela quer que eu escreva ok? Satisfeitos? O que vem agora? Vão querer ler também? Quer saber, eu não vou fazer isso. Só vai me trazer dor de cabeça. - Disse alto e joguei minha mochila no sofá que estava a uns cinco passos de mim.
- Nathália... Eu... eu não sabia. - Disse minha mãe quieta.
- E eu não queria que soubesse. Fica à vontade, tá vazio ainda.  - E saí ao encontro de Zeus.
            Eu não sabia o que ia acontecer, eu nunca tinha falado assim com meus pais, estava me sentindo um lixo. Minha vontade era voltar e implorar perdão. Eu não era assim, mas eu não ia fazer isso. Eu ia passar a tarde no nada como sempre.
- Nathalia! - Gritou meu pai.
            Eu continuei andando, estava chorando e não queria que ele visse. Ele ia se sentir culpado, e a verdade era que a culpa era da minha falta de respeito com eles, e do meu orgulho que não permitia voltar e me desculpar.
- Nathalia! Pare agora. - Disse ele bravo.
            Eu odiava quando ele falava assim comigo, era encrenca. Fiquei estática na hora.
Ele chegou atrás de mim e me puxou de frente pra ele pelo braço com força, sim ele estava muito bravo.
- Olha aqui garota. Sua mãe está lá dentro chorando se sentindo culpada pela sua histeria, e eu tô cansado do seu complexo de vítima tá me ouvindo? Você está me ouvindo?! - Gritou, ainda segurando meu braço com força.
- Sim pai. - Disse quase chorando.
- Então ou você para com esse drama todo, ou você vai se ver comigo! Você não é o centro do universo. Você não passa de uma criança que não sabe nem o que quer da vida! Só porque deu uns beijinhos em um moleque acha que virou alguma coisa? Acha que é dona do próprio nariz? Quer mandar na sua vida? Então sai da minha casa, porque enquanto eu te sustentar quem manda em você sou eu! Eu e sua mãe. E enquanto você quiser ser chamada minha filha, você vai me respeitar. Não ouse gritar com sua mãe nunca mais se não você vai ficar sem dentes porque eu juro que eu te viro um murro na cara! Quer gritar comigo, grita, que depois a gente se resolve, mas não grita com sua mãe!
- Pai você está me machucando. - Disse chorando quase sem deixar que a voz saísse.
- Que dó de você. - E soltou meu braço, que estava super vermelho. - Agora pega essa mochila com esse maldito diário, como você mesma disse, e some da minha frente.
            Eu peguei a mochila e ele virou de costas e foi pra dentro de casa. Eu corri até Zeus, montei e saí rápido dali. O sol estava ardido, então resolvi procurar alguma árvore onde eu pudesse me abrigar na sombra. Fomos até onde acabavam nossas terras. Nosso sítio era divido do outro apenas por uma cerca baixa de arame farpado. Eu e Zeus seguimos a cerca até encontrarmos árvores. Sentei na sombra e comecei a chorar. Sim, eu era um lixo. Eu havia tratado as pessoas que eu mais amava da forma mais medíocre possível. Falei com eles como se eles fossem insetos insignificantes que só estivessem me perturbando. Desabafar com o diário? Não. Eu não estava levando aquilo muito a sério. Depois de uma meia hora, quando eu já estava calma, peguei o caderno e abri na primeira folha.





            Dia 11 de Fevereiro. Sexta-feira.
           [Em baixo de uma árvore onde termina o sítio.] 

          Não espere "Querido Diário" nem nenhuma dessas baboseiras.
         Guardei esse caderno por cinco anos por achar ridículo esse negócio
         de diário.
         Bom, hoje comecei a ir na terapeuta e ela falou pra eu fazer isso
         aqui e é bom que eu faça porque ela "vai saber se eu não fizer".
         Hoje conheci a Angélica no ônibus e a Fabiana (Fabí) na aula de
         educação física, e o Wesley falou do meu shorts. Ótimo não? 
         Bom, também fui grossa com meus pais e estou com medo de voltar
         para casa então acho que vou ficar por aqui.





           Ok, eu fui péssima nisso, mas é bom, assim se alguém por acaso ler meu diário, não vai querer passar da primeira página.
            Depois que guardei o caderno na mochila fiquei entediada, mas eu não podia voltar pra casa tão cedo. Então, fiz a mochila de travesseiro e comecei a ouvir música no celular. Peguei no sono.
            Enquanto dormia, sonhei que quando cheguei em casa, minha mãe tinha levado uma picada de cobra e tinha acabado de morrer, sem que eu tivesse tempo de pedir desculpas pela minha grosseria. O sonho era muito real, então, meu pai disse que minha mãe tinha gritado meu nome até morrer, e eu não estava lá. Estava em sei lá onde com meu “maldito diário”. Então vozes da minha mãe começaram a girar em minha cabeça gritando meu nome e eu comecei a chorar e pedir desculpas. Então acordei com meu celular tocando.
- Alo? - Disse sonolenta e um pouco assustada, nem vi quem estava ligando.
- “Você não vai vir jantar?” -Disse minha mãe do outro lado da linha.
- Mãe. Mãe! Você está bem? - Gritei desesperada.
- “Sim Nathalia. Por que não estaria?” - Disse ela sem entender nada.
- Desculpa mãe, eu fui grossa, estúpida, nojenta... - Comecei a chorar e ela me interrompeu.
- “Nathália, onde você está? Eu fui até o descampado te procurar e não te achei. Vem pra casa, a gente conversa aqui.”
- Você está brava comigo ainda não é? - Respondi.
- “Tá tudo bem. Venha logo, e cuidado, seu pai encontrou uma cascavel hoje.”
- Em casa?! - Gritei apavorada.
- “Não, ela estava longe, perto da cerca que divide o sítio. Onde você está?”
- Estou chegando, tchau mãe. - E desliguei para sair logo dali.

            Chegando em casa ouvi risos dos meus pais. Eles não pareciam zangados.
- Oi? - Disse entrando na sala.
- Minha filha onde você estava que não te encontrei no descampado? - Disse minha mãe.
- Estava muito sol lá então fui procurar árvores. Eu... eu estava perto da cerca, onde começam as árvores que vão pro rio.
            Minha mãe me olhou assustada e correu pra me abraçar.
- E por que demorou tanto pra voltar? Já escureceu a mais de uma hora! - Disse ela me abraçando forte, provavelmente imaginando se tivesse acontecido algo.
- Eu peguei no sono.
- Se estava cansada por que não voltou pra casa, dormir confortável?
- Eu estava com medo de vocês estarem bravos comigo. - Comecei a chorar abraçada com minha mãe. - Vocês me desculpam? Eu não sei o que deu em mim. A..a..a..
- Shh, shh tá tudo bem querida, tá tudo bem, a gente te desculpa sim. - Disse minha mãe acariciando meu cabelo.
            Meu pai deu um sorrisinho de lado pra mim, que significava “tudo bem”.
            Depois da janta tomei um belo banho pra tirar a grama, a terra e as folhas de mim e depois fui para a cama  assistir televisão.
- Nathalia, posso entrar?
- Pode pai, claro. - Respondi.
            Ele entrou no meu quarto com um notebook na mão, colocou na cama e sentou ao lado.
- Eu.. eu exagerei com você aquela hora, mas.. não precisava ficar com medo de voltar pra casa, eu não sou nenhum monstro né, sou seu pai..
- Tudo bem pai, você tinha motivos. - Interrompi.
- Eu te machuquei? - Ele perguntou olhando para meu braço.
- Já passou, está tudo bem. - E coloquei o meu braço para trás pra ele não ver a marca do dedo dele que estava roxa.
- Seu computador está ai, e a internet sem fio já foi instalada. Você.. ai droga. Você não precisa mais fazer terapia se não quiser, vendemos seu computador depois do incêndio sem nenhuma condição, não é justo que a gente coloque uma para devolvê-lo.
- Obrigada, mas eu vou continuar com a terapia pai. - Eu me odiaria por isso, mas eu não queria ver ele mais triste ainda.
- Obrigado. - Disse sorrindo triste e me abraçou forte.
            Depois que ele saiu do quarto, liguei o computador imediatamente. Eu sei que eu só tinha os contatos de anos atrás mas, eu iria achar algo para fazer, com certeza.
            Entrei no meu msn, a primeira coisa que apareceu foi um “pedido de aceitação de amigo” de Bernardo Moura. Recusei imediatamente.
            Pessoas conectadas: nove.
            Ótimo, cinco eu não lembrava quem eram, e as outras três eram Mariana Moura, Regina Maria e Lucas Ander. Regina Maria é uma tia minha que mora na Amazônia. Ela trabalha com pesquisa sobre a vida dos índios.

“ Mari Moura diz: Oi amigaa *-*
            Pensei em responder algo, mas meus olhos se encheram de lágrimas e eu senti raiva, vontade de gritar e quebrar tudo em volta. Menos o computador, claro. Então apenas fechei a janela de conversa da Mariana e bloqueei-a, antes que eu fosse grossa com ela também.
Quando eu ia falar com o Lucas...

" Lucas Ander: Oi Nathy :) "
" Nathalia Mendes: Oi Lucas, como estão as coisas por ai? "
" Lucas Ander diz: Estariam melhor se você estivesse aqui mas, estão indo. E por ai? Já sabe onde vai estudar? "

Bom, ele não estava com a Mariana.

" Nathalia Mendes diz: Está tudo ótimo por aqui, minhas aulas já começaram. A galera parece ser bem legal, tirando uma tal de Jessica. "
" Lucas Ander diz: Que bom! Em, amanhã a gente conversa mais, já que você está com computador né? "
" Nathalia Mendes diz: É! Finalmente. "
" Lucas Ander diz: Eu vou levar a Mari no cinema, ela está falando que eu esqueci ela desde que você foi embora, então vou dar um pouco de atenção á ela. "
" Nathalia Mendes diz: hahaha, ok vai lá amigo. "


Doía mandar isso pra ele, mas era necessário.

" Lucas Ander diz: Beijos, dorme bem... "
" Nathalia Mendes: Beijos, obrigada, você também. "
" Lucas Ander: "
" Lucas Ander está desconectado. "

            Pra que me mandar um coração? Eu já não estava confusa o suficiente?
            E o que ele quis dizer com "..." depois de dorme bem?
            Ah que droga! Acho que eu deveria dormir.
            Mas antes peguei meu diário e abri na primeira folha, onde eu já havia escrito um pouco. Não ia desperdiçar folha pra escrever no mesmo dia.



                 [No meu quarto]

                 Meu pai me deu o computador e disse que não preciso 
                 fazer mais terapia!Mas eu vou, pra compensá-lo pela 
                 minha falta de respeito de hoje.
                 Falei com Lucas por msn, ele me deixou confusa de novo.
                 Ah! A Mariana Moura veio falar comigo. Aquela falsa, 

                 nojenta AAAAAAH!
                 Bom, é pra isso que esse caderno serve então..
              AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH
              HHHHHHHHHHHHHHHHHHH  





                                     PROXIMO CAPÍTULO