-Bom dia
Nathy! - Acordou-me a voz de Mariana seguida de um tapa na perna por cima do
cobertor.
-uhnmm.. Bom dia. Eu acho. - Respondi ainda sonolenta. - O que está fazendo aqui?
-Nós transferimos o almoço pra chácara do meu pai, e como é perto daqui, viemos buscá-la ao invés de ligar. - disse ela contente pela surpresa que havia feito.
-Muito perto, só tiveram que andar uns quinze quilômetros da chácara. - Rimos.
-Sua boba. Ah, leva roupa pra nadarmos no rio. - Disse com tom de insinuação.
-Tá bom... - Respondi desconfiada.
Troquei de roupa e arrumei o que eu ia levar pra chácara. Eu não lembrava exatamente porque eu não queria ir, mas de qualquer forma, eu seria incapaz de dizê-la que não ia, depois dela ter vindo até aqui me buscar.
Quando chegamos na sala, onde seu pai nos esperava enquanto conversava com o meu, lembrei-me porque eu não queria ir. Ele estava lá, de costas para nós, olhando para fora, silencioso, e com ar de admiração. Bernardo, na minha sala, a minha espera. Ótima forma de começar o dia, por que não?
-Bom dia Nathalia! - Disse meu pai com um sorriso brincalhão no rosto, depois olhou pro Bernardo na janela. Este virou imediatamente quando ouviu meu nome.
-Bom dia garotinha. - O pai da Mariana sempre me chamava assim. - Pensei que a Mari não tinha conseguido te acordar. - Todos riram.
-É, acho que ela conseguiu. - Sorri e olhei meio tímida para Bernardo, olhei para o chão assim que meus olhos encontraram os dele, mas deu tempo de ver que o verde dos olhos dele era realmente magnífico. Talvez eu não tivesse que me conformar em não olha-los nunca mais. Talvez, às vezes, eu poderia arriscar umas bisbilhotadas como essa.
-Vamos pai? Quero dar uma volta antes do almoço ainda. - Disse Mariana para Tio Carlos, o pai dela.
-Claro, vamos sim Mari. Até mais. - Disse Tio Carlos para meu pai.
-Até mais, e juízo, vocês três. - Disse meu pai para Mari, eu e Bernardo.
-Pode deixar pai, á muito tempo tomo juízo, por isso acordo de ressaca todo dia. - Disse tirando sarro do que ele me fala desde os oito anos.
-Oi - Bernardo cochichou pra mim quando entramos no carro da Mari e ficamos atrás enquanto ela ia na frente com o pai dela. A mãe da Mari estava com a mãe de Bernardo e a irmã mais velha da Mari na chácara. A irmã mais velha da Mariana se chamava Ana Maria. Que coisa não?
-Oi - Eu disse sem olhar pra ele e sem perguntar mais nada. A vergonha não me permitia mais do que isso.
-Ok. -Ele disse respirando fundo e olhando para fora da janela do seu lado.
Aquilo foi um “é, você realmente não vai falar comigo”. Mesmo assim, não consegui dizer nada a ele. Mas arrisquei, mais uma vez, uma olhada. Ele não olhava pra mim. Ele olhava pra fora.
Os próximos quinze minutos, até estarmos dentro da casa, foram totalmente silenciosos.
-Bom dia Nathalia! - Disse a mãe de Mariana assim que me viu e veio me abraçar.
-Bom dia Tia Marcia. - Disse correspondendo o abraço.
-Então você é a Nathalia? Ouvi muito sobre você ontem a noite depois que chegaram do parque. Eu sou Silvana, mãe do Bernardo.
-Muito prazer. - Eu disse corando.
-Mãe, vamos dar uma volta ta? Que horas o almoço fica pronto? - Disse Mari.
-Daqui duas horas. Estamos assando um porquinho. - Disse Tia Marcia piscando pra mim. - Mas, antes de vocês irem passear, a senhorita vai preparar o suco, porque eu sei que se deixar pra chegar um pouco antes pra isso não chegará. - Disse para Mariana.
-Sim senhora. - Disse Mari indo para a cozinha.
-Eu ajudo.
-Não! - Respondeu-me com pressa. - Quer dizer, não precisa, sério.
-Você nunca dispensou minha ajuda Mariana. Não vai ser agora que vou ficar de madame aqui. - Disse indo para a cozinha atrás dela.
-Ok, já que eu não tenho escolha.
Estávamos na cozinha quando eu percebi que o celular dela que estava no bolso estava tocando, mas estava sem volume, eu vi a luz.
-Nathy, já que você quer me ajudar, pode colocar gelo na jarra enquanto eu vou lá fora pegar mais limão?
-Claro. - Respondi indo em direção a geladeira.
Ela, literalmente, correu pra fora da cozinha. Abri a geladeira e vi uma sacola cheia de limões. Ela sabia disso, ela tinha acabado de abrir a geladeira para ver que sobremesa a mãe dela havia preparado. Por que ela foi pegar mais então? E por que saiu correndo da cozinha? É claro. Bernardo. Ele que estava ligando pra ela. Vamos ver se ela vai voltar com os limões.
Ela voltou antes do que eu imaginei que ela voltaria, como se ela nem tivesse chegado a porta da varanda. Estava de mãos vazias. Claro.
-Tem limão na geladeira não tem?
-Tem sim, uma sacola cheia. - Respondi.
-Nossa, eu tinha acabado de olhar e esqueci. Lembrei quando estava chegando na porta.
-Cabeça de vento. - Rimos.
Eu sinceramente não acreditei nisso, mas enfim.
Terminamos o suco e fomos andar, eu, Mari e Bernardo. Depois de uns dez minutos de caminhada, quando já estávamos perto do rio, resolvemos nos sentar.
Estávamos em silêncio, completamente sem assunto, quando ouvimos som de galope.
-Lucas! - Disse Mari entusiasmada, pondo-se de pé imediatamente.
-Oi Mari, eu recebi sua mensagem, desculpe não responder, vi faz quinze minutos. Eu tinha deixado meu celular desligado.
-Eu pensei que você não fosse vir. Mas você está aqui. - Ela disse quase emocionada.
Lucas olhou para nós, Bernardo e eu, sorriu e disse:
-Posso roubar ela de vocês um pouquinho?
Bernardo me olhou procurando a resposta. Eu estava aflita. Não podia ficar sozinha com ele. Eu teria que dizer algo. Mas adiantaria dizer pra não roubarem minha amiga?
-Claro Lucas. É um prazer revê-lo - Disse sorrindo.
-É um prazer para mim também, Nathalia. - Sempre sorria enquanto falava. - Vamos Mari? - Disse a ela esticando a mão para que ela montasse no cavalo com ele.
Ela montou imediatamente e os dois galoparam para longe de nós.
Lucas morava na chácara. Era a família dele que tomava conta da chácara já que a família da Mariana mora na cidade. Conheço-o dês da primeira vez que vim à chácara. Eu tinha uns seis anos, logo que conheci a Mariana no primário. Ainda estávamos na fase de repulsa por garotos, apesar de que eu nunca passei por isso, a maioria dos meus amigos eram garotos, mas ela, ele tinha pânico de abraçar qualquer garoto, menos Lucas, que conhecera quando tinha dois anos, quando ele mudou-se para a chácara, antes da família dela mudar para a cidade. Ele tem dezessete anos, assim como Bernardo. Os dois são dois anos mais velhos que nós. Lucas tem o cabelo castanho escuro, que quase atinge seus ombros. Seus olhos são castanhos, de um marrom cor de terra, quase avermelhado. Tem cílios compridos e um lindo sorriso. É humilde e muito engraçado. E gosta muito da minha amiga, assim como ela gosta dele, apesar de nenhum dos dois admitir.
Bernardo levantou-se e sentou-se do meu lado, tão perto que seu braço estava encostado no meu. Isso me fez arrepiar. Ele abraçou os joelhos assim como eu, e olhou para longe a sua frente, imitando-me. Ficou em silencio por um instante, mas logo interrompeu meus pensamentos que tentavam achar uma explicação lógica para seu ato inesperado de aproximação.
-Então eu sou lindo, fofo e engraçado? - Ele disse com um enorme sorriso de quem acaba de ganhar uma batalha muito concorrida.
Ele ainda olhava para frente, eu não havia olhado para ele ainda, e depois disso teria muito menos coragem. Eu ri e fiquei vermelha, ainda olhando para frente.
-Será que posso saber por que você está me evitando? - Ele perguntou olhando para mim dessa vez.
-Não é isso. Não era a intenção. - Disse olhando para a grama logo a frente de meus pés.
-Não foi suficiente. - Eu estou com vergonha. - Admiti.
-Vergonha? De mim? Por quê? - Ele perguntou incrédulo e com um tanto de humor em sua voz.
-Não era pra você ter ouvido... aquilo. - Eu disse olhando para meus joelhos. Cada vez que eu falava com ele, me aproximava de esconder meu rosto entre meus joelhos, agora faltava apenas uma frase.
-Olha pra mim. - Ele disse com a cabeça deitada de lado nos próprios joelhos, olhando pra mim.
Eu olhei pra ele, sem muita coragem, e não o olhei nos olhos, olhei para sua testa.
-Me olhe nos olhos. - Ele disse sério.
Lutando contra minha vontade de olhar para longe, olhei dentro daqueles olhos verdes que tanto me atormentaram.
-Você realmente vai me evitar por eu ter ouvido aquilo? - Ele perguntou com cara de triste.
-Desculpe, não era minha intenção. - Disse olhando para baixo.
Ele esticou a mão até meu queixo e puxou meu rosto, obrigando-me a olhá-lo nos olhos novamente.
-Sabe o que eu acho de você? Acho que você é a garota mais linda, mais fofa, mais simpática, mais querida e mais divertida que eu já conheci. Está vendo? Eu ainda estou aqui, te olhando nos olhos. Não vou fugir de você por você ter ouvido isso. Eu poderia ficar te olhando aqui para o resto da minha vida.
Eu estava totalmente envolvida pelo encanto daquele garoto que esqueci de que estava morrendo de vergonha dele. Sua mão ainda segurava meu queixo.
Ficamos nos olhando sem dizer nada por um tempo que não posso especificar. Então, ele soltou meu queixo de leve, deixando seus dedos brincarem com uma mecha do meu cabelo, e foi abaixando o olhar até minha boca. Sua respiração ficou visivelmente mais rápida. Ele olhou de volta para meus olhos, e de volta para minha boca. Eu estava começando a ficar aflita quando ouvimos os galopes de Lucas e Mariana. Nós dois olhamos para eles. Estavam rindo muito em cima do cavalo, e Mariana abraçava-o forte pela cintura para não cair.
Estávamos em um descampado. A grama era verde vivo. Não havia um centímetro que não estivesse coberto por ela. Em alguns lugares via-se algumas florezinhas amarelas que arriscavam-se a nascer no que pode-se chamar de nada. Nasciam solitárias, e assim permaneciam, destacando-se no meio do imenso tapete verde.
-Acho que devemos voltar. Já está quase na hora. - Disse Mariana descendo do cavalo com um enorme sorriso que parecia que não ia sair dali tão cedo. Ela olhava para nós com visível curiosidade por seu primo ter mudado de lugar para tão perto de mim.
Eu não podia acreditar que já havia passado todo o tempo, Parecia que tinha passado uns cinco minutos, desde que eu e Bernardo começamos a conversar. Bom, mas eu não sei quanto tempo ficamos em silencio antes disso, nem por quanto tempo ficamos nos olhando sem dizer nada. Simplesmente perdi a noção de tempo.
Bernardo, que já estava de pé, esticou a mão para me ajudar a levantar. Peguei na mão dele e antes que eu me esforçasse pra levantar, ele me puxou forte, parando-me com o corpo. Estávamos totalmente encostados, um de frente ao outro, eu sentia sua respiração em minha barriga. Nossas mãos dadas e seus olhos nos meus fizeram meu coração acelerar e minha respiração ficar difícil, sua respiração acelerou também, como quando ele observara minha boca, mas dessa vez ao invés de ver, eu senti. Ele sorriu e olhou para minha boca, rapidamente ele me deu um beijo no rosto, bem perto da minha boca. Mariana não viu, pois estava despedindo-se de Lucas.
Voltamos rindo pelo caminho todo, contando piadas, micos, tentando derrubar uns aos outros, e enchendo o saco da Mariana sobre o Lucas, que tinha ido embora a cavalo para não ser visto com ela. A atmosfera entre nós três estava ótima, ainda bem que eu vim.
No almoço, Bernardo sentou-se a minha esquerda, mesmo lado que havia sentado no descampado, e Mariana a minha direita. Ana Maria a minha frente, ao lado da mãe do Bernardo que o olhou durante todo o almoço com curiosidade. Os pais da Mariana sentavam um em cada ponta da mesa.
Durante todo o almoço, Bernardo ficou brincando de empurrar meu pé com o dele. Olhava pra mim de cabeça baixa e dava um meio sorriso disfarçado. Mariana, que não era boba, nos olhava e ria. Na verdade, todos na mesa sabiam que estava acontecendo algo entre a gente, ou pelo menos suspeitavam, mas diferente da Mariana, eles disfarçavam.
Depois que todos haviam terminado de almoçar e já haviam terminado a sobremesa, eu e Mariana fomos lavar a louça, enquanto Bernardo conversava com o resto da família na sala. Quando terminamos, Mariana foi até a sala, chamou Bernardo e avisou seus pais que iriamos passar a tarde no rio.
Então íamos só nós três pro rio? Será que ela ia sair a cavalo com Lucas de novo? Ou será que ele ia nadar com a gente? Não importa. Esse dia estava ficando cada vez melhor.
-uhnmm.. Bom dia. Eu acho. - Respondi ainda sonolenta. - O que está fazendo aqui?
-Nós transferimos o almoço pra chácara do meu pai, e como é perto daqui, viemos buscá-la ao invés de ligar. - disse ela contente pela surpresa que havia feito.
-Muito perto, só tiveram que andar uns quinze quilômetros da chácara. - Rimos.
-Sua boba. Ah, leva roupa pra nadarmos no rio. - Disse com tom de insinuação.
-Tá bom... - Respondi desconfiada.
Troquei de roupa e arrumei o que eu ia levar pra chácara. Eu não lembrava exatamente porque eu não queria ir, mas de qualquer forma, eu seria incapaz de dizê-la que não ia, depois dela ter vindo até aqui me buscar.
Quando chegamos na sala, onde seu pai nos esperava enquanto conversava com o meu, lembrei-me porque eu não queria ir. Ele estava lá, de costas para nós, olhando para fora, silencioso, e com ar de admiração. Bernardo, na minha sala, a minha espera. Ótima forma de começar o dia, por que não?
-Bom dia Nathalia! - Disse meu pai com um sorriso brincalhão no rosto, depois olhou pro Bernardo na janela. Este virou imediatamente quando ouviu meu nome.
-Bom dia garotinha. - O pai da Mariana sempre me chamava assim. - Pensei que a Mari não tinha conseguido te acordar. - Todos riram.
-É, acho que ela conseguiu. - Sorri e olhei meio tímida para Bernardo, olhei para o chão assim que meus olhos encontraram os dele, mas deu tempo de ver que o verde dos olhos dele era realmente magnífico. Talvez eu não tivesse que me conformar em não olha-los nunca mais. Talvez, às vezes, eu poderia arriscar umas bisbilhotadas como essa.
-Vamos pai? Quero dar uma volta antes do almoço ainda. - Disse Mariana para Tio Carlos, o pai dela.
-Claro, vamos sim Mari. Até mais. - Disse Tio Carlos para meu pai.
-Até mais, e juízo, vocês três. - Disse meu pai para Mari, eu e Bernardo.
-Pode deixar pai, á muito tempo tomo juízo, por isso acordo de ressaca todo dia. - Disse tirando sarro do que ele me fala desde os oito anos.
-Oi - Bernardo cochichou pra mim quando entramos no carro da Mari e ficamos atrás enquanto ela ia na frente com o pai dela. A mãe da Mari estava com a mãe de Bernardo e a irmã mais velha da Mari na chácara. A irmã mais velha da Mariana se chamava Ana Maria. Que coisa não?
-Oi - Eu disse sem olhar pra ele e sem perguntar mais nada. A vergonha não me permitia mais do que isso.
-Ok. -Ele disse respirando fundo e olhando para fora da janela do seu lado.
Aquilo foi um “é, você realmente não vai falar comigo”. Mesmo assim, não consegui dizer nada a ele. Mas arrisquei, mais uma vez, uma olhada. Ele não olhava pra mim. Ele olhava pra fora.
Os próximos quinze minutos, até estarmos dentro da casa, foram totalmente silenciosos.
-Bom dia Nathalia! - Disse a mãe de Mariana assim que me viu e veio me abraçar.
-Bom dia Tia Marcia. - Disse correspondendo o abraço.
-Então você é a Nathalia? Ouvi muito sobre você ontem a noite depois que chegaram do parque. Eu sou Silvana, mãe do Bernardo.
-Muito prazer. - Eu disse corando.
-Mãe, vamos dar uma volta ta? Que horas o almoço fica pronto? - Disse Mari.
-Daqui duas horas. Estamos assando um porquinho. - Disse Tia Marcia piscando pra mim. - Mas, antes de vocês irem passear, a senhorita vai preparar o suco, porque eu sei que se deixar pra chegar um pouco antes pra isso não chegará. - Disse para Mariana.
-Sim senhora. - Disse Mari indo para a cozinha.
-Eu ajudo.
-Não! - Respondeu-me com pressa. - Quer dizer, não precisa, sério.
-Você nunca dispensou minha ajuda Mariana. Não vai ser agora que vou ficar de madame aqui. - Disse indo para a cozinha atrás dela.
-Ok, já que eu não tenho escolha.
Estávamos na cozinha quando eu percebi que o celular dela que estava no bolso estava tocando, mas estava sem volume, eu vi a luz.
-Nathy, já que você quer me ajudar, pode colocar gelo na jarra enquanto eu vou lá fora pegar mais limão?
-Claro. - Respondi indo em direção a geladeira.
Ela, literalmente, correu pra fora da cozinha. Abri a geladeira e vi uma sacola cheia de limões. Ela sabia disso, ela tinha acabado de abrir a geladeira para ver que sobremesa a mãe dela havia preparado. Por que ela foi pegar mais então? E por que saiu correndo da cozinha? É claro. Bernardo. Ele que estava ligando pra ela. Vamos ver se ela vai voltar com os limões.
Ela voltou antes do que eu imaginei que ela voltaria, como se ela nem tivesse chegado a porta da varanda. Estava de mãos vazias. Claro.
-Tem limão na geladeira não tem?
-Tem sim, uma sacola cheia. - Respondi.
-Nossa, eu tinha acabado de olhar e esqueci. Lembrei quando estava chegando na porta.
-Cabeça de vento. - Rimos.
Eu sinceramente não acreditei nisso, mas enfim.
Terminamos o suco e fomos andar, eu, Mari e Bernardo. Depois de uns dez minutos de caminhada, quando já estávamos perto do rio, resolvemos nos sentar.
Estávamos em silêncio, completamente sem assunto, quando ouvimos som de galope.
-Lucas! - Disse Mari entusiasmada, pondo-se de pé imediatamente.
-Oi Mari, eu recebi sua mensagem, desculpe não responder, vi faz quinze minutos. Eu tinha deixado meu celular desligado.
-Eu pensei que você não fosse vir. Mas você está aqui. - Ela disse quase emocionada.
Lucas olhou para nós, Bernardo e eu, sorriu e disse:
-Posso roubar ela de vocês um pouquinho?
Bernardo me olhou procurando a resposta. Eu estava aflita. Não podia ficar sozinha com ele. Eu teria que dizer algo. Mas adiantaria dizer pra não roubarem minha amiga?
-Claro Lucas. É um prazer revê-lo - Disse sorrindo.
-É um prazer para mim também, Nathalia. - Sempre sorria enquanto falava. - Vamos Mari? - Disse a ela esticando a mão para que ela montasse no cavalo com ele.
Ela montou imediatamente e os dois galoparam para longe de nós.
Lucas morava na chácara. Era a família dele que tomava conta da chácara já que a família da Mariana mora na cidade. Conheço-o dês da primeira vez que vim à chácara. Eu tinha uns seis anos, logo que conheci a Mariana no primário. Ainda estávamos na fase de repulsa por garotos, apesar de que eu nunca passei por isso, a maioria dos meus amigos eram garotos, mas ela, ele tinha pânico de abraçar qualquer garoto, menos Lucas, que conhecera quando tinha dois anos, quando ele mudou-se para a chácara, antes da família dela mudar para a cidade. Ele tem dezessete anos, assim como Bernardo. Os dois são dois anos mais velhos que nós. Lucas tem o cabelo castanho escuro, que quase atinge seus ombros. Seus olhos são castanhos, de um marrom cor de terra, quase avermelhado. Tem cílios compridos e um lindo sorriso. É humilde e muito engraçado. E gosta muito da minha amiga, assim como ela gosta dele, apesar de nenhum dos dois admitir.
Bernardo levantou-se e sentou-se do meu lado, tão perto que seu braço estava encostado no meu. Isso me fez arrepiar. Ele abraçou os joelhos assim como eu, e olhou para longe a sua frente, imitando-me. Ficou em silencio por um instante, mas logo interrompeu meus pensamentos que tentavam achar uma explicação lógica para seu ato inesperado de aproximação.
-Então eu sou lindo, fofo e engraçado? - Ele disse com um enorme sorriso de quem acaba de ganhar uma batalha muito concorrida.
Ele ainda olhava para frente, eu não havia olhado para ele ainda, e depois disso teria muito menos coragem. Eu ri e fiquei vermelha, ainda olhando para frente.
-Será que posso saber por que você está me evitando? - Ele perguntou olhando para mim dessa vez.
-Não é isso. Não era a intenção. - Disse olhando para a grama logo a frente de meus pés.
-Não foi suficiente. - Eu estou com vergonha. - Admiti.
-Vergonha? De mim? Por quê? - Ele perguntou incrédulo e com um tanto de humor em sua voz.
-Não era pra você ter ouvido... aquilo. - Eu disse olhando para meus joelhos. Cada vez que eu falava com ele, me aproximava de esconder meu rosto entre meus joelhos, agora faltava apenas uma frase.
-Olha pra mim. - Ele disse com a cabeça deitada de lado nos próprios joelhos, olhando pra mim.
Eu olhei pra ele, sem muita coragem, e não o olhei nos olhos, olhei para sua testa.
-Me olhe nos olhos. - Ele disse sério.
Lutando contra minha vontade de olhar para longe, olhei dentro daqueles olhos verdes que tanto me atormentaram.
-Você realmente vai me evitar por eu ter ouvido aquilo? - Ele perguntou com cara de triste.
-Desculpe, não era minha intenção. - Disse olhando para baixo.
Ele esticou a mão até meu queixo e puxou meu rosto, obrigando-me a olhá-lo nos olhos novamente.
-Sabe o que eu acho de você? Acho que você é a garota mais linda, mais fofa, mais simpática, mais querida e mais divertida que eu já conheci. Está vendo? Eu ainda estou aqui, te olhando nos olhos. Não vou fugir de você por você ter ouvido isso. Eu poderia ficar te olhando aqui para o resto da minha vida.
Eu estava totalmente envolvida pelo encanto daquele garoto que esqueci de que estava morrendo de vergonha dele. Sua mão ainda segurava meu queixo.
Ficamos nos olhando sem dizer nada por um tempo que não posso especificar. Então, ele soltou meu queixo de leve, deixando seus dedos brincarem com uma mecha do meu cabelo, e foi abaixando o olhar até minha boca. Sua respiração ficou visivelmente mais rápida. Ele olhou de volta para meus olhos, e de volta para minha boca. Eu estava começando a ficar aflita quando ouvimos os galopes de Lucas e Mariana. Nós dois olhamos para eles. Estavam rindo muito em cima do cavalo, e Mariana abraçava-o forte pela cintura para não cair.
Estávamos em um descampado. A grama era verde vivo. Não havia um centímetro que não estivesse coberto por ela. Em alguns lugares via-se algumas florezinhas amarelas que arriscavam-se a nascer no que pode-se chamar de nada. Nasciam solitárias, e assim permaneciam, destacando-se no meio do imenso tapete verde.
-Acho que devemos voltar. Já está quase na hora. - Disse Mariana descendo do cavalo com um enorme sorriso que parecia que não ia sair dali tão cedo. Ela olhava para nós com visível curiosidade por seu primo ter mudado de lugar para tão perto de mim.
Eu não podia acreditar que já havia passado todo o tempo, Parecia que tinha passado uns cinco minutos, desde que eu e Bernardo começamos a conversar. Bom, mas eu não sei quanto tempo ficamos em silencio antes disso, nem por quanto tempo ficamos nos olhando sem dizer nada. Simplesmente perdi a noção de tempo.
Bernardo, que já estava de pé, esticou a mão para me ajudar a levantar. Peguei na mão dele e antes que eu me esforçasse pra levantar, ele me puxou forte, parando-me com o corpo. Estávamos totalmente encostados, um de frente ao outro, eu sentia sua respiração em minha barriga. Nossas mãos dadas e seus olhos nos meus fizeram meu coração acelerar e minha respiração ficar difícil, sua respiração acelerou também, como quando ele observara minha boca, mas dessa vez ao invés de ver, eu senti. Ele sorriu e olhou para minha boca, rapidamente ele me deu um beijo no rosto, bem perto da minha boca. Mariana não viu, pois estava despedindo-se de Lucas.
Voltamos rindo pelo caminho todo, contando piadas, micos, tentando derrubar uns aos outros, e enchendo o saco da Mariana sobre o Lucas, que tinha ido embora a cavalo para não ser visto com ela. A atmosfera entre nós três estava ótima, ainda bem que eu vim.
No almoço, Bernardo sentou-se a minha esquerda, mesmo lado que havia sentado no descampado, e Mariana a minha direita. Ana Maria a minha frente, ao lado da mãe do Bernardo que o olhou durante todo o almoço com curiosidade. Os pais da Mariana sentavam um em cada ponta da mesa.
Durante todo o almoço, Bernardo ficou brincando de empurrar meu pé com o dele. Olhava pra mim de cabeça baixa e dava um meio sorriso disfarçado. Mariana, que não era boba, nos olhava e ria. Na verdade, todos na mesa sabiam que estava acontecendo algo entre a gente, ou pelo menos suspeitavam, mas diferente da Mariana, eles disfarçavam.
Depois que todos haviam terminado de almoçar e já haviam terminado a sobremesa, eu e Mariana fomos lavar a louça, enquanto Bernardo conversava com o resto da família na sala. Quando terminamos, Mariana foi até a sala, chamou Bernardo e avisou seus pais que iriamos passar a tarde no rio.
Então íamos só nós três pro rio? Será que ela ia sair a cavalo com Lucas de novo? Ou será que ele ia nadar com a gente? Não importa. Esse dia estava ficando cada vez melhor.
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